Cartão do Cidadão // Crise no sector da fotografia Por: / Secção: Actual / 14-03-2008 Imprimir Enviar a um amigo
Fotógrafos profissionais já não produzem as fotos para o BI, porque os balcões de registo civil e lojas do cidadão estão preparados para os substituir. Associação do sector admite ser o fim do retalho português de fotografia.Os fotógrafos profissionais queixam-se de estar a atravessar a maior crise de sempre no sector, chegando mesmo a temer que a profissão esteja em vias de extinção. A Associação Nacional dos Industriais de Fotografia (ANIF) acusa o Governo de ser o responsável por esta situação, porque “o Estado está a fazer de fotógrafo quando se tira o cartão do cidadão”, impedindo que os profissionais de fotografia produzam as fotos, que passam a ser permitidas nos balcões dos registos civis e lojas do cidadão. Recorde-se que o cartão do cidadão, começou a ser implementado em Fevereiro do ano passado, nos Açores, mas desde o início deste ano já está disponível em 115 balcões do país, prevendo-se que, até ao final de Junho, este novo documento - substituiu o bilhete de identidade, o cartão da segurança social, de utente do SNS, cartão de contribuinte e de eleitor - possa ficar disponível em todo o território nacional. Com esta medida, está em causa a sobrevivência do retalho português de fotografia dada a importância da foto de identificação. O presidente da ANIF denuncia que “há muitas lojas de fotografias a fechar as portas, pessoas a ficarem desempregadas e muitas famílias com as mãos na cabeça porque esta fatia considerável de negócio praticamente desapareceu”. Carlos Vilas ressalva que não está contra a modernização administrativa. “É necessário desburocratizar. O cartão único é bem-vindo, porque facilita a vida às pessoas, mas estamos contra o processo e à forma como foi feita.” A ANIF entrou em contacto, em 2006, com o Primeiro-Ministro no sentido de chegarmos a uma plataforma de entendimento relativamente à fotografia tipo passe. O caso foi remetido para o Ministro da Administração Interna que delegou explicações na Unidade Coordenadora da Modernização Administrativa (UCMA). Até hoje, a única resposta que a ANIF teve foi que a medida não iria entrar em vigor sem que as associações do sector fossem confrontadas com o problema e tentativa de arranjar entendimento. O ano passado, o adjunto da UCMA escreveu uma carta à ANIF que “foi uma forma de nos atirar poeira para os olhos referindo que o assunto iria merecer ponderação”. O que é certo é que a medida já está no terreno e “não se importaram com as consequências que podem provocar nas cerca de 30 mil pessoas que directa ou indirectamente vivem da fotografia em Portugal”.
Limitados a fotos de bebés e acamados
O fotógrafo recorda que os avanços tecnológicos nesta área, com a chegada do suporte digital, a juntar à escassez de casamentos e à retirada das fotos de identificação, podem mesmo levar à extinção desta profissão. O mais caricato é que os fotógrafos apenas estão autorizados a tirar as fotos de identificação dos bebés e acamados, porque as máquinas existentes nos balcões só estão preparadas para tirar fotografias a partir de uma determinada altura. “Nestes casos de humanidade já precisam de nós”, diz revoltado o presidente da direcção da ANIF que pretende lançar o repto aos seus associados para fazerem uma espécie de boicote às fotos dos bebés e dos acamados, como forma de pressionar o Governo a dialogar. Carlos Vilas não tem dúvidas que “somos um país de terceiro mundo”, porque em outros países - Holanda, Bélgica, França e Espanha - ainda houve uma plataforma de entendimento entre os governos e os fotógrafos nesta matéria.
Prejuízos superiores a 12 mil euros/ano
Depois dos Açores e de Portalegre, foi a vez do distrito de Bragança, a 24 de Janeiro, ter disponível o cartão do cidadão nos balcões do registo civil. Os fotógrafos profissionais começaram a notar os efeitos desta medida. Foi o caso de Vítor Pereira, em Mirandela, que, só no mês de Fevereiro, fez menos cerca de 300 passes, relativamente ao mesmo período do ano passado. Uma diminuição que representa menos três mil euros em caixa. “Isto num mês fraco de negócio, para o nosso meio é considerável. Nesta época baixa do ano, não há casamentos, não há festas, só teríamos as fotos tipo passe, foto digital”, diz. Aquele profissional de fotografia acrescenta que, durante todo o ano de 2007, “fiz quase 18 mil euros em passes. Sabendo-se que o BI corresponde a cerca de 70% do passe que a gente faz durante o ano, vou ter um prejuízo superior a 12 mil euros”. A agravar esta situação, a vinda do suporte digital veio possibilitar às pessoas a impressão das fotos na sua própria casa. Outro profissional de fotografia, Gustavo Carvalho, não tem dúvidas que esta situação vem complicar a vida e que “esta profissão é para desaparecer”. O fotógrafo descreve o caso de um bebé não se sentava, teve de ser fotografado no joelho da mãe, mas a segurar-lhe com o braço. “Tive de cortar o braço através do photoshop. No registo civil não fazem isso e têm de se socorrer de um fotógrafo. Já no resto, a qualidade não interessa”, acrescenta. A juntar a tudo isto, são cada vez menos os casamentos e as fotos para as matrículas também já não são precisas, depois de tirar a primeira vez. “Estamos a viver uma crise muito grande”. Lamenta.


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