Peso da Régua // Uma poesia em versos de montanha Por: / Secção: O Olhar / 11-07-2008 · 1 comentário(s) Imprimir Enviar a um amigo
Lá no alto, por entre vinhedos, socalcos e força humana, a verdadeira ode à NaturezaEm baixo, o rio Douro testemunha a imponência de S. Leonardo de Galafura. Trilhos imensos, arquitectados pela força do arado, transparecem um aparente consentimento entre a natureza e a condição humana. Nessas paisagens vão-se embrenhando dizeres antigos que, em forma de lenda, insinuam o fantástico. Essas histórias vão contando episódios passados, onde os mouros, antigos habitantes destas encostas, são personagens principais No alto dos seus 566 metros de altitude, o Monte de São Leonardo de Galafura enche o olhar com uma panorâmica indescritível de paisagens talhadas pelo Homem ao longo dos tempos. Situado no Peso da Régua, o miradouro é um dos cartões de visita para quem percorre as terras durienses. Do cimo desta elevação montanhosa, avistam-se os socalcos, escadaria firme, quase senhorial, que desce compassada até ao Douro. O rio, num caudal quase inocente, deixa-se ir, num vagar excessivo, parecendo estar de visita às próprias encostas que o ladeiam. No Monte de São Leonardo comprova-se a harmonia e o respeito mútuo entre ser humano e natureza. Uma estreita cumplicidade que oferece desinteressadamente uma imensidão de cores à mercê dos sentidos, em alternâncias cromáticas que se aliam aos cheiros da terra e do rosmaninho. Miguel Torga chamou a esta panóplia de sensações “um poema geológico, a beleza absoluta”. É esta acalmia natural, o presente maior que Galafura dá a todos aqueles que, numa aparente visita, enobrecem gratuitamente o olhar.
Dos confins da memória
Se as paisagens suspendem respirações, os mitos que nelas se encerram exacerbam a imaginação. Nas pregas de terra de São Leonardo da Galafura vivem ainda as memórias dos mouros, povo que fruiu a beleza deste lugar em tempos longínquos. D. Mirra é a princesa encantada que inspira todo o imaginário em torno deste local. Enclausurada na gruta do Monte de São Leonardo durante a noite, D. Mirra passeia-se pelo matagal de forma “invisível” durante o dia. A moura encantada espera, ainda hoje, pela determinação de quem seja capaz de enfrentar o medo do oculto e lhe quebre o feitiço. Bastará o beijo de um homem jovem ao bater da meia-noite no primeiro dia do ano. Depois, a pequena gruta, protegida por “dois dragões” com pele de xisto, converter-se-á na antecâmara do luxuoso palácio que se esconde no subterrâneo. Nascida em Galafura a 12 de Julho de 1940, Beatriz Arrobas é uma das habitantes que transmite esta herança lendária. “Diziam que D. Mirra aparecia à meia-noite transformada em cobra. Quem lá fosse à gruta tinha que deixar subir a cobra pelo corpo acima até ela lhe dar um beijo. Se deixasse dar o beijo, sem mostrar medo, quebrava-lhe o encanto e ficaria feliz para toda a vida com o tesouro que está lá escondido. Como não houve ninguém que teve essa coragem de deixar subir a cobra e receber o beijo, ninguém tem o tesouro da D. Mirra.” Beatriz Arrobas partilhou ainda outras lendas que ficaram do tempo dos mouros. “Antigamente havia uma velha que levava a lenha a todas as pessoas e ninguém tinha que se preocupar. Mas, um dia, essa velha morreu e as pessoas passaram a ter que ir buscar a lenha lá para trás de São Leonardo. Juntavam-se três ou quatro e lá iam. Um dia encontraram uma cova de carvão e comentaram: “olha aqui que ricos carvões para pôr no ferro de passar” e uma delas meteu meia dúzia ao bolso. No regresso, já não havia carvões, mas umas libras em ouro. Pousou-as e voltou lá para buscar mais carvões, mas, quando lá chegou, já não havia nada.” Também os figos se transformaram em libras. Em tempos idos, havia uns armazéns em S. Leonardo para o qual se dirigia um senhor que, ao dar a meia-noite, viu uma manta coberta de figos como se estivessem a secar. “Então ele disse: “deixa-me levar meia dúzia deles para matar o bicho” e meteu-os ao bolso. Já no armazém, para acompanhar um copo, foi para os comer e eram libras de ouro”, contou a habitante. A morada de D. Mirra é guardada de dia e de noite por dois rochedos que, segundo reza outra lenda, se aproximam “como duas queixadas” e trituram os ossos de quem lá for espreitar. Beatriz Arrobas recordou que havia pessoas que tinham tentado entrar na gruta, mas chegavam a um ponto e não conseguiam avançar. “Não sei se era falta de ar, se era alguma coisa sobrenatural que estava para lá, o que é certo é que ninguém chegou ao fim da gruta.” A princesa D. Mirra recorreu também a uma menina que “andava a apanhar nabiças” e à qual pediu um bolo, uma vez que a mãe cozia pão. “Não dizes nada a ninguém”, alertou D. Mirra. Mas a menina não foi capaz de guardar o segredo e, quando regressou, D. Mirra respondeu-lhe: “O que tu precisavas era que te furasse a língua com uma agulha para não dizeres nada a ninguém. Se assim fizesses conseguirias desencantar-me do Monte de S. Leonardo.”
Trilhos fúnebres deixados pelos mouros
A cerca de cinco quilómetros da povoação de Galafura, o Cemitério Mouro ou Fonte dos Mouros foi outrora o berço da freguesia. Por culpa de uma invasão de formigas, a população que habitava o local viu-se forçada a mudar os seus pertences para outras paragens, a actual localização de Galafura. Aqui existiu, em tempos idos, um castro romano, governado por Galafre, etimologia do actual nome da freguesia. Os estudos realizados possibilitam avançar que este cemitério se reporta a uma necrópole atribuída à Alta Idade Média, algures entre os séculos VII e VIII, e está localizado numa encosta das imediações da localidade de Galafura, na vertente Oeste do Monte de S. Leonardo. Quatro sepulturas de forma sub-rectangular escavadas no afloramento xistoso estão devidamente identificadas como tal, porém não se descarta a possibilidade de que haja, pelo menos, um total de sete enterramentos individuais. A densa vegetação que marca o local não permite uma avaliação precisa de quantas sepulturas ali estarão exactamente. Este levantamento é também dificultado porque, com o passar dos anos e na sequência de obras que ali se foram desenvolvendo, podem ter sido apagadas marcas inequívocas das últimas moradas de alguns mouros. Indubitavelmente, persistem alguns recantos a descobrir ao longo do cenário desmedido de São Leonardo de Galafura. Um passeio pela terra permite vaguear também no imaginário desenhado pelas lendas, fazendo perdurar crenças ancestrais. Como um bom poema soa a natural na primeira vez que é lido, também estas paisagens arrebatam inconscientemente a serenidade de quem lhes faz a primeira leitura, provocam a surpresa no momento de a reler, deixando um cunho de admiração na memória de quem, certamente, não a esquecerá.

Estatísticas das notícias //

1 Comentário