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Entrevista // Educação para os valores Por: Alberto Pais / Secção: Igreja / 11-07-2008 · 1 comentário(s) Imprimir Enviar a um amigo

Foto: Alberto Pais
“Uma boa parte do programa de EMRC tem a ver com a educação para certos valores”

João Duque, professor na faculdade de Teologia da Universidade Católica de Braga, orientou a acção de formação dos docentes de Educação Moral e Religiosa Católica, da diocese de Bragança sobre a educação para os valores na sociedade contemporânea. O docente falou ao “Mensageiro” sobre a disciplina de EMRC e sobre o tema da acção.

Mensageiro Notícias: O tema da formação adapta-se às necessidades da disciplina de EMRC?

João Duque: Certamente. É preciso compreender as circunstâncias culturais para uma educação moral ou dos valores, caso contrário essa educação será ineficaz. E temos que reconhecer que as circunstâncias culturais actuais são muito específicas, sobretudo devido à mentalidade dita «pós-moderna» (em certo sentido, individualista e hedonista) e devido a influências tecnológicas, sobretudo da televisão e da net. Por isso, é importante enquadrar a educação ética e o debate dos respectivos valores, neste contexto. Convém ter noção de que uma boa parte do programa de EMRC tem a ver com a educação para certos valores, muito marcantes na nossa cultura europeia (os denominados valores humanistas).

M.N.: A disciplina em causa é um espaço importante para tratar dos valores e de problemáticas actuais. Quais os temas prioritários a apresentar aos alunos?

J.D.: Fundamentalmente, trata-se de ajudar a que os alunos cresçam como pessoas livres, críticas, na mesma medida, responsáveis e solidários. No primeiro aspecto, os mecanismos tecnológicos e publicitários actuais não ajudam muito a desenvolver o espírito crítico; no segundo, a tendência individualista não favorece os comportamentos responsabilizantes, de compromisso sacrificado para com os outros e para com o bem comum. Daí ser importante dar prioridade a esses níveis da educação

M.N.: Qual a situação de EMRC na actualidade?

J.D.: Do ponto de vista da sua organização e prática, parece-me que está no bom caminho. Há um forte empenho na valorização dos docentes, dos programas e dos materiais. Nesse sentido, o nível profissional de grande parte dos docentes é uma mais-valia para esse serviço público importante. Do ponto de vista «exterior», ainda se mantém certo preconceito anti-cristão na sociedade, que leva muitos alunos e pais a menosprezarem o papel de tão importante disciplina. São comportamentos antiquados, que apenas servem de eco a ideologias dos três últimos séculos, mas que uma Europa madura já deveria ter superado.

"Parece-me descabido e perigoso que se proponha a introdução de uma disciplina de religiões comparadas"

M.N.: Numa época em que aumenta o anti-religioso, não sente que a disciplina tem muitos anti-corpos?

J.D.: Não sei se o anti-religioso aumentará. O alarido de alguns ditos «anti-religiosos» é que parece aumentar. E a maioria da população vai na «cantiga». Em realidade, a população actual é muito religiosa. O que há necessidade é de trabalhar bem as diversas atitudes religiosas, porque podem resvalar para domínios desumanizantes. Também aí, seria importante valorizar a disciplina, como esclarecimento do verdadeiro espírito religioso – correspondente às grandes tradições religiosas – e o espírito de seita, que pode ter graves consequências. A propósito, parece-me descabido e mesmo perigoso que se proponha, simplesmente, a introdução de uma disciplina de religiões comparadas. Descabido porque a disciplina de EMRC já tem, no seu programa, informação suficiente sobre as religiões principais. Haveria, isso sim, que potenciar o efeito desta disciplina. Perigoso, porque não se pode reduzir tudo a simples apresentação das ofertas, como numa feira. A educação moral ou ética implica critérios humanistas de discernimento. Para isso, a tradição judaico-cristã pode dar um grande contributo. Parece-me que, quem sugeriu essa nova disciplina, ou ignora o que se passa, ou não pensou bem nas consequências, ou está de má fé.

M.N.: Não sente que por vezes são tomadas decisões nas escolas que colocam entraves à leccionação de EMRC?

J.D.: Isso depende muito dos respectivos conselhos executivos. Em geral, o problema é que não se considera tão importante o trabalho desta disciplina como o das outras. Isso significa falta de perspectiva cultural. Mas também poderá haver alguma culpa da parte de muitos docentes de EMRC que não valorizam a disciplina. Haveria que investir, ainda mais, em elevado profissionalismo.

M.N.: Sentiu evolução ou retrocesso da disciplina de EMRC durante as últimas duas décadas?

J.D.: Não do ponto de vista das estatísticas, mas do ponto de vista do empenho dos docentes e da respectiva preparação penso que se deram passos positivos. O corpo docente é hoje maioritariamente bem preparado e jovem, ou que dá forte esperança. Mas não se pode descansar…

M.N.: Qual a importância desta disciplina no contexto escolar?

J.D.: Será a disciplina para trabalhar explicitamente a educação ética para valores fundamentais à convivência humana; será a disciplina para abordar, claramente, as diferentes tradições religiosas; será a disciplina para expor, fundamentalmente, a identidade da tradição judaico-cristã (mesmo para os não-cristãos, pois deverão conhecer uma das mais profundas raízes da nossa cultura); será a disciplina para dar a conhecer as influências dessa tradição nas marcas fundamentais da nossa cultura e da nossa identidade. Abandoná-la pode significar ir perdendo essa mesma identidade, com tudo o que isso possa significar.

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1 Comentário Feed

alessandra wolf sandri · escreveu em 21-07-2008 às 15:50:10
gostei muito do que li adorei continuem com esse mesmo conteudo.obrigada por tudo.
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