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Bragança // Castelo palco da “morte” do III Duque de Bragança Por: Carla A. Gonçalves / Secção: Cultura / 06-06-2008 · 3 comentário(s) Imprimir Enviar a um amigo

Foto: Carla A. Gonçalves António Afonso
Entrevista a António Afonso, encenador da peça de índole histórica

A Associação Bragança Histórica está a preparar os últimos “retoques” da peça “Julgamento e Morte do III Duque de Bragança”, que será apresentada no âmbito da segunda edição da Festa da História ( 15 a 17 de Agosto ) e cujo livro é lançado já este Sábado. Escrita e encenada por António Afonso, traz à luz do dia uma “estória” da História de Portugal, desconhecida de grande parte da população. A três meses da apresentação ao público, o encenador falou ao "Mensageiro" sobre os últimos preparativos e desvendou um pouco do que se irá passar em palco

Mensageiro Notícias: Depois da “Lenda da Torre da Princesa”, apresentada em 2005”, e de “Inês, Inês!”, em 2007, prepara-se para apresentar o “Julgamento e Morte do III Duque de Bragança”. Como surgiu esta ideia de abordar numa peça de teatro uma história referente a Bragança, mas pouco conhecida do público em geral?

António Afonso: A ideia surge como corolário de um projecto que teve por objectivo dinamizar o espaço que o castelo de Bragança oferece, através de espectáculos teatrais concebidos para revelar factos históricos relacionados com Bragança. Esta peça, “Julgamento e Morte do III Duque de Bragança”, divulga factos desconhecidos do grande público e que envolveram D. Fernando II, III Duque de Bragança.

M.N.: Em suma, remete para a importância da Casa de Bragança.

A. A.: Sim. E para o facto do Duque de Bragança ter sido julgado e condenado à morte por D. João II, sendo acusado de lesa-majestade num processo muito duvidoso e pouco transparente. Talvez tudo faça mais sentido se nos lembrarmos que a Casa de Bragança, era a mais poderosa de entre os Reinos Ibéricos e cabeça de uma linhagem que rivalizava em poder e privilégios com a Coroa, afrontando, por esse motivo, o espírito centralizador de D. João II. Daí talvez, a decisão de julgar, quase sumariamente, o Duque de Bragança, na tentativa de liquidar a Casa de Bragança.

M.N.: É uma versão da História que talvez poucos conheçam. É seu objectivo trazer à luz do dia os factos históricos relacionados com a cidade de Bragança?

A.A.: Cabe a todos nós, bragançanos, trazer à luz do dia e ao conhecimento do grande público gente e factos históricos que engrandeceram ao longo dos séculos o nome de Bragança e que, desde a sua formação, a transformaram em cabeça de uma região, bem cedo demarcada da influência de Reinos, tão poderosos como os de Leão e Castela. Apesar de vivermos numa República, ainda hoje, a Casa de Bragança honra a cidade, projectando o seu nome em todo o mundo.

M.N.: O Castelo servirá novamente de palco, tal como nas peças que encenou anteriormente. Como é que tudo se irá desenrolar em termos cénicos?

A.A.: Dados os meios financeiros disponíveis, a encenação não pode configurar-se tal como seria desejável. Por isso, teremos que aproveitar ao máximo as vantagens da arquitectura envolvente do Castelo, como as torres, torreões, escadarias, muralhas, e completá-la com um bom guarda-roupa, adereços, efeitos de luz e som, que recriem o ambiente medieval apropriado.

M.N.: Serão utilizados alguns meios técnicos de relevo?

A.A.: Sim. Utilizando uma boa iluminação, com som de alta definição e microfones emissores de cabeça, o público poderá sentir o desenrolar da peça a cada momento. Outros elementos fundamentais, são a voz dos actores e a sua expressão corporal. Palavra e voz, personagem, acção, espaço cénico e tempo dramático, terão de coexistir, ainda que virtualmente, durante a representação. Acredito que integradas num outro espaço e num outro tempo, as personagens recriadas ganharão existência fictícia, pois tudo contribui para a criação de uma nova realidade.

M.N.: E não será difícil a coordenação de todos os elementos em espaço aberto?

A.A.: Tentar coordenar todos os elementos disponíveis de forma objectiva, é a função do encenador e, por isso, ela se torna tão apaixonante. Tudo tem de estar conjugado e quase em perfeita harmonia. Digo quase, porque a perfeição não existe em teatro. O teatro é uma arte dinâmica e, por isso, é essencialmente fundamentada em factores muito subjectivos.

"Castelo é o espaço "obrigatório" para a realização desta peça

M.N.: No entanto, o espaço do Castelo pode trazer alguns constrangimentos, nomeadamente se a afluência do público for maciça, como aconteceu no ano passado com “Inês, Inês!”. Há alguma possibilidade de apresentar “Julgamento e Morte do III Duque de Bragança” duas vezes?

A.A.: Essa hipótese foi também estudada. Mas não vai ser possível realizar dois espectáculos. O público é sempre o principal alvo e a razão de ser destas iniciativas. Na peça “Inês, Inês” era esperada uma boa adesão, mas fomos surpreendidos pela anormal afluência. Ultrapassou todas as expectativas. Na altura foram apontadas críticas, inclusive pelo vosso jornal. Temos de as aceitar, porque de facto aconteceram algumas falhas pontuais.

M.N: E no seu entender a que se ficaram a dever essas “falhas pontuais”?

A.A.: São falhas que aconteceram, mais pela euforia do público e pela expectativa criada em torno da iniciativa, do que propriamente por falhas da organização. Para isso, terá contribuído o facto do pátio interior do castelo ter uma área bastante reduzida, incompatível para uma afluência de público tão fora do comum. A ânsia de encontrar o melhor lugar para assistir, era tal, que, por mais rigorosa que fosse a organização, ela tornar-se-ia sempre ineficaz perante tais circunstâncias. Todas as entidades responsáveis pela “Festa da História” colocaram o maior empenho na organização, sendo surpreendidas também por tão forte adesão de público.

M.N.: Mas este ano vão tomar algum tipo de medidas para evitar estes problemas?

A.A.: Este ano estaremos todos mais atentos e precavidos, adoptando as medidas mais adequadas. Lamentamos os condicionalismos, mas não há hipótese de fazer a peça noutro lugar. É ali, naquele pátio interior do castelo, que a peça tem de ser obrigatoriamente representada, não só pela envolvente extraordinária daquele espaço, que é única, mas também pela sua beleza arquitectónica. A fim de poder oferecer melhores condições ao público assistente, e face ao êxito da anterior peça “ Inês, Inês”, colocou-se a hipótese de realizar, não um, mas dois espectáculos, de forma a poder abranger um maior número de pessoas, sempre ávido de assistir em boas condições, a espectáculos de rara beleza e lazer, como este. Mas, como já disse, isso não é possível, pois era dependente de vários factores, difíceis de conjugar.

M.N: A entrada será gratuita, como no ano passado, ou pretendem introduzir mais alterações?

A.A.: A meu ver, uma das medidas que poderia introduzir maior disciplina seria a criação de um bilhete a um preço simbólico e a criação de uma bancada que aumentasse a capacidade do recinto e permitisse a marcação de lugares. No entanto, essa é uma decisão que cabe ao executivo camarário. A realização deste evento pertence inteiramente à organização das Festas da Cidade 2008 e da “Festa da História”, e são elas que determinarão a melhor maneira de oferecer à cidade este espectáculo e farão decerto introduzir as alterações e logística necessárias, que possam permitir melhorar as condições de assistência ao espectáculo.

M.N.: A três meses da apresentação da peça, quais são as expectativas?

A.A.: Estamos mais uma vez perante uma peça de conteúdo histórico, assunto que desperta muita curiosidade e se torna objecto sempre apetecível do grande público. Apesar das dificuldades inerentes, prevê-se um grande êxito na edição deste ano. Eu julgo que estamos perante um projecto que encontrou terreno fértil e que, continuando a ser apoiado, poderá atingir, num futuro próximo, dimensões de impacto regional, nacional e até internacional, tendo em conta a proximidade de Espanha. Fazendo com que o presente se reencontre com o passado, e dando a conhecer factos ligados à sua história, Bragança, a muito curto prazo, pode projectar-se no panorama cultural regional e internacional, a exemplo de outras localidades com história. O futuro cultural de Bragança, a meu ver, passa pelo aproveitamento da beleza do seu castelo e zonas envolventes, através de propostas em que o presente se reencontre com o passado, pois é no passado que se alicerça o futuro e, nesse aspecto, temos um espaço privilegiado para desenvolver iniciativas lúdicas desta natureza.

Alguns personagens da trama

Catarina Vasques, papel de rainha D. Leonor Entrei na anterior peça, mas não tenho experiência. É muito gratificante participar. É um momento em que nos divertimos e aprendemos alguma coisa. A personagem é muito diferente de mim em termos psicológicos. É uma rainha fria, muito política, muito difícil de interpretar, sobretudo na morte de D. Diogo (irmão).

Jorge Moreira, papel de Duque de Bragança O Duque de Bragança é uma pessoa que não é entendida e como personagem tem o seu q.b. de complicado. É um duque que, tendo muito mais poder do que o rei, era invejado pela própria Casa Real. Foi uma pessoa que se manteve sempre fiel e leal ao rei, mas não foi entendido e foi acusado de conspirar contra esse mesmo rei, tendo sido morto. A peça está muito bem conseguida e penso que vai ser entendida. Foi mais uma injustiça contra Bragança.

Maria Vera Cruz, papel de D. Ana Mendonça Ana Mendonça foi uma antiga amante de D. João II de quem teve um filho bastardo, D. Jorge. É uma personagem complicada, porque é muito dramática. Está sempre a chorar, desesperada, porque lhe é retirado o filho.

A “injustiça” na História de Bragança

A peça “Julgamento e Morte do III Duque de Bragança” é uma obra de ficção histórica que remete para o julgamento de D. Fernando, condenado à morte em 1483 por ordem de D. João II. Portugal vivia então tempos conturbados. O rei, na ânsia de fortalecer o seu poder, decidiu afrontar os privilégios da nobreza de então, confiscando os bens para a Coroa. Este processo foi particularmente penoso para a Casa de Bragança, que era, à época, a mais poderosa família dos reinos de Portugal, Castela, Aragão e Navarra. O julgamento de D. Fernando, na opinião do encenador António Afonso, foi considerado desde sempre um processo “pouco transparente” em que o Duque foi acusado de traição de lesa-majestade. A peça, uma obra de ficção científica, parte de crónicas históricas da época, que nos revelam que a condenação do Duque de Bragança foi mais um acto de injustiça para com a cidade nordestina. Em palco estarão várias dezenas de actores, com idades compreendidas entre os seis e os 70 anos, que pertencem ao grupo de teatro da Associação Bragança Histórica. Tal como no ano passado, com “Inês, Inês!”, a peça poderá vir a contar com a colaboração de alguns grupos de teatro de Zamora, embora ainda nada esteja confirmado. A Associação Bragança Histórica foi criada em 2006 por intervenção de António Afonso. Apesar do trabalho que têm vindo a realizar na área cultural, o seu coordenador queixa-se da existência de um “deficit cultural elevado” que leva a que a associação ainda tenha “um longo percurso a percorrer para se afirmar”.

Quem é António Afonso

António Afonso é natural de Bragança, onde actualmente vive, mas iniciou a vida profissional em Lisboa. Foi na capital que adquiriu alguma experiência teatral com grupos de teatro amador que ajudou a fundar e onde desempenhou, por várias vezes, o papel de assistente de encenadores de grande qualidade, como é o caso de Costa Ferreira ou Jorge Listopad. Como peças, o autor e encenador destaca a “Lenda da Torre da Princesa”, editada em Bragança em 2005, “Inês, Inês!”, editada em 2007, e “Terra-Mãe, Sangue, Suor e Lágrimas”, obra esta não editada. António Afonso tem ainda obra noutras vertentes culturais e artísticas. A nível poético, para além da participação em revistas e recitais, o autor escreveu “Margens do Silêncio e do Olhar” e “Inquietude do Vento e dos Sentidos”. Reconhecido pintor, com exposições nacionais e internacionais, António Afonso tem ainda no seu currículo o projecto do “Monumento ao Agricultor” e vários prémios nas diferentes áreas artísticas.

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3 Comentários Feed

manuel · escreveu em 08-06-2008 às 12:54:06
Parabéns ao António Afonso por mais uma vez nos trazer uma peça sobre a nossa história e por mais uma vez relembrar as injustiças cometidas ao longo da história contra Bragança. Espero continuar a ver trabalhos desta natureza, encenados para locais como o Castelo. Bragança já merecia e todos devemos apoiar. Parabéns por isso ao Mensageiro, o único orgão que apoia a cultura brigantina e dá cobertura a estes eventos e não apenas às notícias bombásticas de que a sic tanto gosta!!!!
Maria Liège (Brasília-Brasil) · escreveu em 22-12-2008 às 11:54:20
Em uma viagem que fiz a Portugal fui até a cidade Bragança, especialmente para conhecer D. Antonio Afonso e seu amigos - atores que atuaram na peça "Inês...Inês".
Voltei de Bragança apaixonada por esse ser humano maravilhoso e encantador, que além de escritor, diretor, produtor, encenador teatral é um poeta, na essência da palavra.
D. Antonio é, de fato, uma pessoa que impressiona por sua inteligência, cultura, versatilidade, simpatia, comunicação, alegria...uma ser extraordinário.
Em nosso encontro, fui brindada com um exemplar do livro "Inês...Inês" que li várias vezes, com profundo carinho e paixão, imaginando aquela história de amor interrompida.
Neste ano de 2008, mesmo de longe, não deixei de acompanhar o trabalho de D. Antonio com a estréia nova peça em agosto, que sei foi um sucesso absoluto.
Parabéns ao povo de Bragança que tem em seu seio essa criatura maravilhosa, encantadora e comprometida com o resgate e o culto à história dos bragantinos.
Maria Liège de Sousa Leite
Brasília-DF/Brasil
Em uma viagem que fiz a Portugal fui até a cidade Bragança, especialmente para conhecer D. Antonio Afonso e seu amigos - atores que atuaram na peça "Inês...Inês". Voltei de Bragança apaixonada por esse ser humano maravilhoso e encantador, que além · escreveu em 16-04-2009 às 18:38:53
Em uma viagem que fiz a Portugal fui até a cidade Bragança, especialmente para conhecer D. Antonio Afonso e seu amigos - atores que atuaram na peça "Inês...Inês".
Voltei de Bragança apaixonada por esse ser humano maravilhoso e encantador, que além de escritor, diretor, produtor, encenador teatral é um poeta, na essência da palavra.
D. Antonio é, de fato, uma pessoa que impressiona por sua inteligência, cultura, versatilidade, simpatia, comunicação, alegria...uma ser extraordinário.
Em nosso encontro, fui brindada com um exemplar do livro "Inês...Inês" que li várias vezes, com profundo carinho e paixão, imaginando aquela história de amor interrompida.
Neste ano de 2008, mesmo de longe, não deixei de acompanhar o trabalho de D. Antonio com a estréia nova peça em agosto, que sei foi um sucesso absoluto.
Parabéns ao povo de Bragança que tem em seu seio essa criatura maravilhosa, encantadora e comprometida com o resgate e o culto à história dos bragantinos.
Maria Liège de Sousa Leite
Brasília-DF/Brasil
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