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Trás-os-Montes // No coração do Douro Por: Ana Teixeira / Secção: O Olhar / 30-08-2010 · 3 comentário(s) Imprimir Enviar a um amigo

Foto: Ana Teixeira
Por entre montes e vales se descobre o que de melhor existe no lugar mais ínfimo da região transmontana

Dois países, um rio: o Douro, palavra tão conhecida pelo número de vezes que é pronunciada nos quatro cantos do mundo. De Vila Real a Miranda do Douro, as paisagens vão variando entre os socalcos das vinhas, as planícies e os olivais, mas a aventura e o deslumbramento é o mesmo não fosse a região de Trás-os-Montes e Alto Douro um ex-líbris impossível de não constar nos destinos de férias de cada um. O Mensageiro partiu com a bússola em mão para descobrir as Arribas do Douro. Até Miranda do Douro, as especificidades naturais e o património único e histórico unem-se para nos oferecer uma paisagem, onde o silêncio e a beleza nos faz querer estar lá infinitamente.

Roteiro de mirar o Douro

Mais uma vez, o Mensageiro juntou-se à iniciativa do Ciência Viva, através da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) para uma viagem geológica. O Verão é sinónimo de férias e calor e, por isso, de praias, mas para quem gosta de descobrir Portugal, as iniciativas que juntam o saber ao lazer são cada vez mais uma opção a considerar. E é isso que têm feito muitos dos portugueses. Entre caminhos e trilhos, rumou-se ao primeiro ponto de passagem: o miradouro da Serra da Castanheira, o “ponto mais alto de toda a zona do planalto”. Cerca de 997 metros de altitude permitem um ponto de observação de toda a zona envolvente, num ângulo de 360 graus, inclusivamente terras espanholas. “O encaixe do Douro no percurso do Douro Internacional, de acordo com dados de geomorfologia, supõe-se que tenha sido através de duas bacias hidrográficas independentes, com uma a drenar para o Atlântico que seria, no fundo, um pré-Douro, e outra rede interior a drenar para um lago que, hoje, está testemunhado pelos sedimentos, areias, cascalhos e argilas na zona de Valladolid, em Espanha”, justificou a docente da UTAD, Maria Elisa Preto. Olhando à volta, as diferenças de paisagens saltam à vista. Os tipos de rochas vão, segundo a também coordenadora deste projecto, “controlando as disparidades do quadro paisagístico dos vales, uns em V típico, outros com paredes verticalizadas e, por isso, com escarpas com mais de 50 metros de altura”. Depois de estômago aconchegado, o destino foi a Barragem da Bemposta, no concelho de Mogadouro. O calor apertava e isso convidava a um recanto fresco, por isso, desceu-se cem metros para o nível da água para se conhecer o interior daquele empreendimento hidroeléctrico. “Esta visita serviu para se perceber como se faz o aproveitamento da energia e, por outro, para ter contacto com o antigo leito do rio para entender a morfologia das rochas”, avançou Maria Elisa Preto. E para observar esses tipos de rochas, percorreu-se um túnel, um pouco gélido, mas onde se pôde contactar com as migmatites e os pegmatitos. A Barragem da Bemposta é constituída em “arco/abobada”, com cerca de 87 metros de altura. A estrutura inclui-se na bacia hidrográfica principal do Douro, tendo uma bacia própria na ordem dos cem quilómetros quadrados.

A paredes-meias com Espanha

Saindo de Bemposta em direcção a terras espanholas distam apenas poucos quilómetros de distância. Entra-se já em Zamora, rumo ao município de Fermoselle, considerado a “capital natural ‘de los Arribes del Duero’”. “Esta localidade tem um aproveitamento do enquadramento geológico elevado, dado que tem uma lâmina granítica sobre as rochas mais brandas, onde são cavadas as tradicionais bodegas”, esclareceu a investigadora. Estes espaços subterrâneos são as típicas adegas, onde “conservavam os alimentos e os vinhos, estando todas ligadas umas às outras, em termos de ventilação e circulação de água”. No entanto, com o “passar do tempo”, as bodegas foram-se dividindo à velocidade das típicas divisões familiares e, por isso, são todas particulares. “A que visitámos é de uma associação de amigos”, contou Maria Elisa Preto, frisando que o “aproveitamento” das rochas foi imprescindível para suportar as “estradas e a própria vila”. Depois de se conhecer os recantos da acolhedora terra de Fermoselle, nada melhor do que uma caminhada até ao Rio Duero, um percurso pedestre que permitiu “saborear” cada paisagem. Sempre a descer até à Albufeira de Bemposta, os cortes de respiração eram constantes, não pelo cansaço, mas por cada deleite natural. Lá, estava à espera um barco que nos levou até Sendim. “O abaixamento do leito do rio nesta altura está a mais de 15 metros, o que permite ver expostas algumas rochas que raras vezes estão à mostra”, avançou Maria Elisa Preto. Ainda que o percurso tenha sido impossível de fazer na sua totalidade, o quarto de hora de viagem passou num ápice. “A Zona do Diabo é algo espectacular, parece uma craveira separada do resto da rocha.”

Proteger com os Parques Naturais

De ambos os lados, a riqueza patrimonial e paisagística do Douro levou a que, em 1998 e em 2002, os dois países criassem o Parque Natural do Douro Internacional (PNDI) e o Parque Natural de los Arribes del Duero (PNAD). Mas a realidade de cada, que deveria ser unânime, é totalmente díspar. Do lado português, o PNDI há muito que não tem vigilantes, mais concretamente desde Outubro de 2009. Abrangendo os concelhos de Mogadouro, Miranda do Douro, Freixo de Espada à Cinta e Figueira de Castelo Rodrigo, o PNDI é o segundo maior do País. Para Maria Elisa Preto esta situação “está cada vez pior”. “É o total abandono destas áreas protegidas. Durante estas visitas, o PNDI dava-nos sempre um guia para explicar a parte da flora, da fauna, da botânica, mas desde há três anos deixou de haver técnicos”, lamentou. Ao contrário, do lado espanhol, existem espaços de divulgação e protecção do PNAD, como é exemplo, a Casa do Parque. Em termos geológicos, tanto em Portugal como em Espanha, as similitudes são totais, existindo um prolongamento do tipo de rochas de um território para o outro. Para a docente da academia transmontana “não existem diferenças, porque não há fronteiras”. “Em Fermoselle, permanecem umas minas antigas e uma pedreira de mármore, com uma extensão significativa e, em terras lusas também, só que em menor dimensão.” É nesta base que o trabalho tem vindo a ser desenvolvido pela equipa da UTAD e de Salamanca. “Temos procurado encontrar este tipo de paralelismo”, justificou a investigadora, destacando o exemplo das bodegas. “Em Fermoselle, as bodegas são maiores, mas em Urrós também existem, só que em menor dimensão. Também os canais de Miranda continuam para Espanha e as lâminas graníticas do município espanhol também se prolongam no lado português.” Granitos, migmatitos, quartzitos, xistos e gnaisses estão no mapa geológico das duas áreas protegidas.

“É preciso valorizar o que se tem”

O valor das regiões naturais é imenso, não apenas pela sua importância em termos ambientais, mas pelo seu potencial turístico. Mas, para que isso aconteça, as “pessoas de cá têm que reconhecer e valorizar um pouco o que têm”, avançou Maria Elisa Preto. As iniciativas da Ciência Viva e o trabalho desenvolvido pela equipa são exemplo disso. “Fazemos isto por carolice e por amor à camisola, mas se houvesse ainda mais serviços organizados, este tipo de eventos seria um sucesso, porque tem procura”, sublinhou a investigadora. A realização de mais visitas ao coração da região transmontana seria também uma forma de “dar a conhecer o território”, não esquecendo o potencial existente para visitas de estudo. “Uma professora de Coimbra vem cá todos os anos desde 2004 com os seus alunos. Muitas das vezes, as pessoas não vêm cá, porque não existe muita divulgação”, apontou. Estas visitas trariam ainda mais benefícios se existissem ainda mais “serviços de restauração e empresas”, bem como uma rota delineada com “percursos pedestres e sinaléticas”.

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3 Comentários Feed

Ana Marcos · escreveu em 30-08-2010 às 16:15:33
Parabéns aos organizadores e dinamizadores (na pessoa da Dra.Elisa) destas acções pedagógicas. Elas podem despertar a curiosidade a muitos e levar o poder local a valorizar e desenvolver o que de bom essas terras têm.
Felicidaes e Bom Trabalho.
Luís Sousa · escreveu em 06-09-2010 às 10:22:18
Estas acções são importantes para dar a conhecer as potencialidades naturais, e assim promover o desenvolvimento sustentado das regiões mais deprimidas.
Lamento que não haja uma aposta séria, concertada e a longo prazo, neste tipo de actividades. Quantos de nós já vimos, por esse mundo fora, exemplos de aproveitamentos de algo com menos valor daquele que existe na zona do Douro Internacional?
A maior parte das vezes não se trata de um problema de investimento, mas tão só de valorizar o que se tem. Bem sei que para os habitantes locais terá mais sentido a construção de uma nova rotunda do que a sinalização de um percurso pedestre pelas fragas que bordejam o Douro (pedras?...aquilo não vale nada!), mas a longo prazo apenas há uma caminho...
FAÇAM A ESCOLHA CERTA!


Cumprimentos
Tomás Ferreira · escreveu em 22-09-2010 às 18:44:44
Corroboro a opinião do Sr.Luis Sousa.
Oxalá o amor por essas terras e a "carolice" da Doutora Elisa Preto seja o fermento para que o Poder Local, Ministérios do Ambiente e do Turismo tomem acções concertadas na criação de Roteiros, paisagisticos, culturais e gastronómicos ... apoiados com infrastuturas adquadas: caminhos, sinaléticas, restauração, hotelaria...
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