Bragança // Obras de arte da pré-história ao século XX Por: / Secção: O Olhar / 13-08-2010 · 1 comentário(s) Imprimir Enviar a um amigo
Atingir novos públicos com projectos inovadores é um dos objectivos do Museu Abade de Baçal, que apresenta uma colecção rica e diversificadaApós as obras de requalificação, ampliação e adaptação do espaço a características museológicas, concluídas em 2006, o Museu Abade de Baçal pode finalmente apresentar todo o seu espólio que abrange a arte contemporânea (pintura e desenho, sobretudo), a arqueologia, a epigrafia, a etnografia, numismática, ourivesaria, arte sacra, escultura, mobiliário e faiança. Das esculturas zoomórficas pré-históricas, a marcos milenares romanos, até à pintura de Abel Salazar, no século XX, passando pela arte sacra, ourivesaria e paramentaria de séculos anteriores, este espaço, situado na zona histórica de Bragança, apresenta uma exposição que abrange um imenso período de tempo, e constituiu-se como um lugar incontornável de passagem, para quem pretenda conhecer um pouco melhor esta terra. Grande parte da exposição é um legado de ilustres bragançanos que, ao longo dos tempos contribuíram para esta reunião de peças. Uma outras peças fazem parte da história do próprio edifício, que foi Paço Episcopal até à implantação da Republica, em 1910. Entre os que mais terão contribuído para esta reunião de peças está o Abade de Baçal, director do museu de 1925 a 1935, e também Raul Teixeira, outro dos directores deste espaço, nas décadas seguintes. A designação actual, como “Museu Abade de Baçal”, foi conferida logo em 1935, pelo Ministério da Instrução Pública, como homenagem ao “eminente arqueólogo, testemunho ímpar de Trás-os-Montes na cultura portuguesa da primeira metade do Século XX”, pode ler-se numa nota informativa fornecida por Ana Maria Afonso, directora do Museu. Criado no âmbito do ideário da República, em 1915, o então Museu Regional de Obras de Arte, Peças Arqueológicas e Numismáticas de Bragança, este museu herdou o espólio do Museu Municipal de Bragança, criado em 1847, sob a direcção do coronel Albino Lopo. Funcionou, até 1015 nos paços do concelho e foi, entretanto, enriquecido com a participação da classe eclesiástica que correspondeu ao apelo do Bispo da época, D. José Alvez Mariz, no sentido de serem incorporadas no recheio do Museu obras de interesse artístico, histórico, ou arqueológico. Segundo Ana Maria Afonso, os visitantes, podem, assim encontrar o fundo mais antigo do Museu, constituído pelo espólio proveniente da igreja do antigo Paço Episcopal, constituído por mobiliário, pintura, esculturas e alfaias litúrgicas do século XIII. Também podem ser visualizados dois tectos de antigas igrejas, um deles pertencente à Igreja de S. Bento e outro à Igreja do Convento dos Jesuítas de Bragança. A colecção de arqueologia foi reunida pelo Coronel Albino Lopo, arqueólogo natural de Torre de D. Chama. Já a colecção de Epigrafia e a colecção Arqueológica do Neolítico da Idade do Bronze e Ferro devem-se ao Abade de Baçal. Na década de 40 foi incorporada no Museu uma importante colecção de pintura, por influência do director de então, Raul Teixeira, que tinha relações próximas com importantes artistas portugueses daquele tempo, como Joaquim Lopes, Henrique Tavares, Veloso Salgado, Marques Rodrigues, Ezequiel Pereira, Adolfo Marques, Túlio Vitorino, Justino Alves, Eduarda Lapa, Armando Lucena, Augusto Gomes e outros. Também sob a sua influência, foram incorporadas no Museu obras de Silva Porto, José Malhoa, António Carneiro, Aurélia de Sousa, Marques Oliveira e outros. O Museu dispõe ainda de colecções de Almada Negreiros e Abel Salazar. Este último deixou o legado ao Museu, também por influência de Raul Teixeira, de quem era amigo. Existem ainda outro importantes legados, como o legado de Sá Vargas, em ourivesaria e mobiliário, legado de Trindade Coelho, mobiliário e biblioteca, o legado de Guerra Junqueiro, mobiliário, documentos gráficos e pintura, o legado do Coronel Ramires, de 2000 moedas portuguesas, e o legado de Eduardo costa de mobiliário e pintura. Todos, è excepção de Abel Salazar são naturais do distrito de Bragança.
Criação de um Bilhete único é um desafio aos museus de Bragança
Para que um maior número de pessoas possa ver estas obras de arte, com os seus próprios olhos, um dos desafios da actual direcção do Museu Abade de Baçal é trazer novos públicos a esta sala de visitas do concelho e da região. Ana Maria Afonso lança ainda o desafio a outros espaços museológicos da cidade para a criação de um bilhete único, que permitisse dar a conhecer aos visitantes toda a riqueza artística que podem apreciar em Bragança. Com esta dinâmica conjunta poder-se-ia atingir uma franja de visitantes que ainda é difícil captar, pelo menos para este espaço, ou seja a franja respeitante ao turismo cultural, que mobiliza pessoas em todo o mundo. “Devia haver um trabalho em rede em Bragança, nesse aspecto, porque valorizava toda a cidade e a pequena economia”, explica Ana Maria Afonso. Enquanto o Museu Militar de Bragança, que funciona no Castelo, é um dos mais visitados do país, esses números não se reflectem ao nível de visitas a outros espaços, o que, entende a directora do Museu Abade de Baçal, poderia acontecer, se fosse estabelecido um roteiro pelos vários museus, para oferecer aos operadores turísticos. Contudo, actualmente, o “turismo que vai ao Posto de Turismo não se reflecte no Museu Abade de Baçal e acho isso um pouco estranho, porque quem quer conhecer a região acho que seria uma boa abordagem, um bom início, começar aqui”, defende a directora. Um dos passos para que os turistas passassem neste, como em outros museus, seria a possibilidade de lhes oferecer um bilhete único, que incluísse, pelo menos, a visita ao Museu Militar, Museu Abade de Baçal e Centro de Arte Contemporânea Graça Morais. “Haveria um percurso lógico, mesmos nível de diacronia. Traria logo retorno e resultados. A partir daí tentar trabalhar a programação em conjunto e criar uma marca e uma imagem para fora da região. Já se justificava um plano de marketing bem elaborado, vantajoso para todos e para a região também”, defende Ana Maria Afonso. O desenvolvimento de parcerias com museus de Zamora é também uma perspectiva que Ana Maria Afonso encara como positiva, para aumentar o número de visitantes e permitir uma maior divulgação deste Museu na região e fora da região. “Temos um espólio que não é só de Bragança, mas também de outros concelhos e da própria cultura a nível nacional”. Sem esse plano, por enquanto, pelo menos, “Temos que ter um pouco de engenho e arte para pensar como trazer gente, porque estar à espera de visitantes não nos vai permitir essa interacção, essa dinamização. E não é só pela questão estatística. O Museu existe para ser visitado. O seu papel de desenvolvimento social, de democratização do acesso à cultura só se realiza se tivermos esse público”, sublinha Ana Maria Afonso, acrescentado que, quando é visitado, é apreciado. O problema são as pessoas que nunca chegam a conhecê-lo. A realização de candidaturas para a inventariação e preservação do património móvel e imaterial da região, são outros objectivos da directora, de modo a aumentar não só o número de visitantes, mas também contribuir para apresentar a própria região a nível externo. A realização de exposições itinerantes parte do espólio do Museu em outros museus do país é outro dos objectivos. Estes serão projectos que necessitarão do acordo de várias entidades. A nível autónomo, e depois de ter passado algum tempo sem direcção, o que explica o reduzido número de visitantes o ano passado (cerca de 6200), o próprio Museu está a desenvolver projectos para captação de novos públicos, na região, e fora da região.
Percurso de Braille
Um desses projectos destina-se à terceira idade e outro a pessoas com necessidades educativas especiais ou dificuldades de acesso aos conteúdos como é o caso de pessoas cegas. Para estas últimas, Ana Maria Afonso fala da criação de um circuito em Braille. Para as crianças com necessidades educativas espaciais, fala em projectos que permitam a terapia ou ensino pela arte, que foram já experimentados em outros museus com bons resultados. “Vamos tentar trazer alguma pessoas que nos desenvolvam projectos inovadores nessa perspectiva”, afirma. Entretanto, o trabalho que o Museu tem vindo a desenvolver com as escolas do concelho, ao longo dos anos, mantém-se. Neste momento, está já a ser preparada a agenda pedagógica para apresentar aos agrupamentos, que poderão assim incluir no seu plano de actividades iniciativas do Museu Abade de Baçal. “Temos uma série de actividades já em carteira, que vamos oferecer com se fosse o nosso produto, que eles depois podem aderir”.
Exposição da República
O Museu Abade de Baçal vai receber também, este ano, uma Exposição Comemorativa dos Cem Anos da República e um com um ciclo de conferências. Este ciclo conta com a apresentação de uma investigação de Neto Jacob sobre a data histórica na região. Além disso, continua a receber outras exposições temporárias, que permitem atrair ao museu novos perfis de público. Um das exposições já programadas trará a Bragança Sisa Vieira, numa abordagem dos museus a partir da perspectiva da sua arquitectura. A partir de Março do próximo ano, o Museu Abade de Baçal vai acolher uma grande exposição de epigrafia, financiada no âmbito o QREN. Esta exposição vai ter vários núcleos. Além do núcleo central no Museu Abade de Baçal, haverá núcleos em Miranda, Vila Flor e Mogadouro. A nível da divulgação externa, Ana Maria Afonso acredita que o ciclo de cinema sobre Trás-os-Montes, com a presença de realizadores, a realizar na primeira semana de Setembro, será um, forte contributo. “É uma actividade com perfil que vai ter um alcance nacional”, explica.
Espaço museológico moderno, num antigo edifício
O Museu Abade de Baçal está sediado no antigo Paço Episcopal, construído pelo Bispo de D. João de Sousa Carvalho no início do século XVIII a partir de velhos casebres da mitra. Sofreu algumas obras de beneficiação enquanto Paço Episcopal, feitas nos meados do séc. XVIII pelo Bispo D. Frei Aleixo de Miranda Henriques. Em 1912 o edifício foi expropriado à Diocese ao abrigo da Lei de Separação dos Bens do Estado e da Igreja. Nessa altura, alem do Museu, funcionaram no edifício várias instituições, como a Guarda Nacional Republicava, a Caixa Geral de Depósitos, o Arquivo e a Biblioteca. A GNR partilhou aquela casa com o Museu Regional de Bragança até 1935. Em 2937 tiveram início obras de requalificação e adaptação de todo o espaço a Museu, que prolongariam até 1940. Por último, em 1991 tem início a primeira de três fases daquela que foi a maior intervenção de requalificação, projectada pelos arquitectos António Portugal e Manuel Maria Reis. Esta intervenção, cuja última fase decorreu em 2005, permitiu uma reestruturação geral e redimensionamento dos espaços expositivos, no sentido de poder agrupar e expor as colecções de forma fluida e coerente. Foi nesta altura também que o edifício contíguo, a casa de José Faria, passou a integrar o espaço do Museu o que permitiu alargar o espaço da exposição e criar um acesso ao jardim que prolonga e delimita o Museu a nascente, e ainda criar uma sala para o serviço educativo, destinada ao desenvolvimento de actividades com crianças das escolas e actividades de ocupação dos tempos livres.

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