Carção - Vimioso // Uma rapariga na aldeia Por: / Secção: O Olhar / 11-02-2010 · 30 comentário(s) Imprimir Enviar a um amigo
Jovem sente apego à terra onde sempre cresceu e ao lar no qual se sente bem, mas, “mais tarde ou mais cedo”, quer partir, para experimentar essa outra vida, “lá fora”Num tempo em que são poucos os jovens transmontanos que ainda vivem e trabalham numa aldeia, Sara Ana Macedo Afonso, jovem de 21 anos, mora em Carção, concelho de Vimioso. Esta aldeia, durante a semana, se torna quase uma terra “ fantasma”; terra pela qual tem carinho e respeito. Os jovens, que, tal como Sara, sonharam com uma vida profissional diferente das actividades tradicionais do mundo rural, partiram. Sara também tem, ainda, esse sonho. Chegou a “partir”, mas regressou e agora tenta encontrar o caminho, dividida entre “dois mundos”. Sara frequentou o Ensino Superior, editou um livro e está já preparar já um outro, “mais elaborado”, conta-nos. Mais do que um “lugar seguro”, onde se sente bem e é feliz, a aldeia é também uma das suas fontes de inspiração. Mas, Sara sente também o apelo de conhecer outros mundos e viver outras histórias. “Sou uma pessoa feliz” frisou. É nova, tem a vida toda pela frente e já é escritora de um livro: “Enquanto o tempo quiser”. Nasceu em França, onde os pais emigraram quando eram ainda muito jovens. Veio para Carção com dois anos de idade. Desde então, vive com os pais, e, actualmente, ajuda-os no negócio da padaria. Não recorda os anos passados na França, lembrando-se de crescer, estudar e ter amigos em Carção, uma aldeia que só tem pessoas com as quais pode partilhar momentos próprios da juventude nos fins-de-semana, ou nas férias. Os amigos de Sara estão a estudar fora, na maioria. Não há muitas pessoas da sua idade a viver na aldeia. Carção tem principalmente idosos, com filhos no estrangeiro sobretudo em França e Espanha. As pessoas emigraram quase todas à procura de uma qualidade de vida melhor. Outros foram estudar e ficaram a viver no litoral, em cidades grandes ou pequenas, mas, na maioria distantes da terra natal. No entanto, no Verão, Carção é uma aldeia repleta de gente nova que regressa. “Qualquer carçonense sente que tem de regressar sempre, acabam todos por virem cá”, refere, acrescentando que só tem pena que alguns naturais, que chegaram a lugares sociais de relevo no país, não façam mais por esta aldeia que Sara sente no sangue. A jovem descreve Carção como “ a aldeia fantasma”, durante a semana. Nos fins-de-semana há bastantes adolescentes, mas que não têm qualquer distracção. Segundo indica, seria importante a criação de mais iniciativas, que já existem noutras aldeias, algumas mais pequenas, para poder dinamizar aquele lugar e fixar mais população, durante o ano. “ Podiam organizar festas ao fim-de-semana, por exemplo. Nunca acontece nada aqui”, explica. Nunca a não ser no Verão, quando chegam os emigrantes. Então sim, há festas, mas não é a essas que Sara se refere. O que desejava para valorizar a terra era um espaço de maior convívio quotidiano, de encontro jovens e não só. É que, além do café, não há mais nada. Apesar disso, gosta do local onde vive. “Gosto disto, é calmo, é diferente.” É única jovem solteira na aldeia durante a semana, mas não esconde o gosto que tem pela terra. Este mundo rural permite “ter conhecimento das coisas”, sob outro ponto de vista, como, por exemplo, saber “ que um pacote de leite vem da vaca e não do supermercado” diz Sara Afonso, sorridente. “ Há muitas crianças que desconhecem esta realidade”. Viver na aldeia, oferece assim, alguns privilégios, respirar o ar puro e usufruir de uma liberdade diferente daquela que se vive nos centros urbanos, com todos os constrangimentos de tempo e espaço que a vida, nesse locais, tem. A sua rotina diária resume-se a ajudar os pais na padaria. Assume ter outras actividades como passear, visitar as amigas em outras terras. Não sente solidão. A Internet, a facilidade de transporte são ligações a um mundo diferente, no qual já viveu. Frequentou a escola primária na aldeia. Aluna de sucesso, seguiu para Vimioso e depois para Bragança para acabar o secundário. Ainda frequentou um ano a Universidade de Trás-os-Montes de Alto Douro, mas desistiu por várias razões académicas e problemas pessoais. Foi nessa altura que conheceu uma amiga que tinha editado um livro. Desse conhecimento surgiu a oportunidade de editar também um conjunto de poemas, alguns dedicados a Carção e a pessoas da aldeia. Desde cedo sente o apelo da literatura e o seu maior sonho é viver dessa arte. A fotografia é outro dos seus interesses e, também para isso contribuiu muito as paisagem rurais, a natureza circundante, a beleza dos recantos que Sara considera evidente, para qualquer pessoa.
Sonhar com “outra vida”
Viveu durante aproximadamente um ano em Vila Real, onde foi “ bastante difícil habituar-se” por estar longe de casa. Vinha durante aos fins-de-semana, e não sentia, por isso, tantas saudades de casa. Mas ambiciona um futuro diferente. Pretende continuar os estudos académicos na área do cinema, literatura, fotografia (ainda não sabe bem) e viver numa cidade, quem sabe um dia, que a fizesse sentir feliz. A sua futura profissão tem de estar ligada aos seus interesses. Para Sara, fazer algo sem gosto, não é uma solução de vida. Poder viver da literatura é o seu maior sonho. Prosseguir os estudos é um objectivo mais imediato desta jovem que tem algum receio de ir para as cidades metropolitanas. “ Não posso ir logo de oito para 80”. Por um lado deseja experimentar coisas novas e por outro não se vê passar “ de uma aldeia pequena para uma cidade grande”. Perante o escasso trabalho que as aldeias rurais oferecem, reconhece que tal fenómeno acabará por ser “inevitável”. A juventude chama mais alto e sente vontade de viver outras aventuras a permanecer na aldeia. “Sonho conhecer novas coisas”. Mas sem nunca esquece a aldeia onde vive, à qual pretende sempre voltar.
“ Enquanto o tempo quiser”
Adepta da literatura sempre teve paixão pela escrita. Os tempos livres são passados principalmente em casa por ser “caseira”. “ Quando tenho tempo, escrevo, e ocupo-me bastante a escrever.” Começou a escrever alguns poemas relacionados com amor, amizade, e a terra. “ Se tenho muita inspiração naquilo que faço deve-se ao sítio onde estou porque realmente isto inspira-me. “No início não gostava de mostrar o que escrevia, mas depois foi ganhando alguma confiança. Com receio, “ resolvi arriscar” e editar o livro. “ Não quero chamar-lhe poesia, porque não rima”, explicou. Para Sara escrever e colocar em letras “o que vem de dentro”. A editora Corpos no Porto aceitou publicar o livro. Foram editados 300 exemplares. “ Comprei metade e vendi uns 100. Outros ofereci-os”. A edição do livro revelou-se “ um dos momentos mais felizes da minha vida”. Após a edição do livro, participou na Revista Almocreve. O responsável pela revista, Paulo Lopes, convidou-a para escrever alguns dos seus poemas num jornal de poemas Brasileiro que tem a colaboração de descendentes de Carção, amigos do responsável. Esta oportunidade também revelou-se “única” e o envio de um poema foi logo reencaminhado rumo Brasil. Espera-se a edição do próximo livro, um romance, que permanece ainda inacabado.
Poema do livro “ Enquanto o tempo quiser”, dedicado a Carção
Terra Minha!
Ficas perdida no meio do nada
Pareces abandonada,
Mas não..
Existe mais vida em ti,
Que no resto do mundo!
Tudo em ti
É verdadeiro,
É genuino,
É puro!
Terra minha,
Aquela em o que o tempo parou,
Terra minha
No meio dos montes e dos rios.
Tudo respira
Tudo transpira
Sonho
Paz
Alegria...
Terra dura e fria,
Morte daqueles que trabalham nela!
Voa,
Rasteja,
Cavalga,
Anda...
Mundo,
Terra abençoada e castigada
Terra que vê sol e tempestades
Terra que ama e odeia
Terra que dá e tira
Terra do orgulho,
A minha terra!
Sara Ana Macedo Afonso

30 Comentários
Retrata, na sua essência, quais os problemas da Juventude no Interior do País, ao mesmo tempo que mostra os porquês de uma desertificação humana em ritmo cada vez mais acelerado!
Vamos andando que o lugar onde vive é um lugar seguro, mas também por estar cada vez mais isolado é fruto apetecível para os gangues organizados que por aí andam e que têm por base a “terra de ninguém”, ou seja os locais não governamentais super vigiados, os estádios de futebol que tem tantos polícias como assistentes, as zonas habitacionais onde mora gente que não ocupa cargos públicos.
Graças a Deus que a jovem resolveu voltar e não ficar da parte da lá dos Pirinéus, como tantos jovens que só cá vêm porque os pais assim o fazem e os avós ainda estão vivos.
Depois….
Enquanto o tempo quiser a Sara vai ficar por lá, por aquele recanto onde pode aparecer um “príncipe” ou um político, de 4 em 4 anos!
Escreva mais Sara e não desista.
Procure quem a apoie.
Diga-lhes que tem direito a viver bem, na sua terra, juntamente com a comunidade local que resiste ao tempo.
E escreva. Escreva sempre que a alma lhe doa!
Até porque escreve bem, no meu humilde entender
Tenho uma prima GENIAL !!!!!!
joana
Puis un GENIAL presse
Jane Doe
(ta cousine)
Beijoka, tu mereçes
a vida tem de ser vivida, transformar os nossos sonhos em realidade e nao perder tempo a fazer o k toda a gente faz!
viva a diferença!
um grande beijo para a minha Sra que sempre me deu a mao quando precisei!
obrigada por seres tu!
bjo
Gosto da pessoa que te tornas-te. Já és adulta, dona do teu destino. A minha amizade compele-me a dizer-te que estarei sempre lá. Mas se não tiver, queria estar.
Deixo um abraço, daqueles de putos e amigos.
Guilherme Costa
gostei de ler a tua entrevista,vejo k estas muito feliz.,ainda bem k estas conseguir alcançar todos os teus objectivos. beijinhos tudo de bom é o k esta amiga e ex colega te deseja
Sofia Sábio
ps:espero a oferenda de um livro autografado por ti lol
EsperO que des "bons" motivOS, para que apareças mais vezes, pois é sempre bOm ver e ler coisas tão unicas comO as TU escreves!!
Adorei o teU livrO : Enquanto o tempo quiser"
Fico a espera de mais!!! eheh
bejinhOs*
amO'te maninhaa =DD
deviam fazer mais nestas regioes mais isoladas
Saudades dos sabores das uvas, maçãs, ameixas, morangos, dos niscaros, do pão no lagar com azeite, das alcaparras, do rebusco das castanhas, das espigas, do pão acabado de coser, dos figos, das amoras de valdecovo... e os cantares das gentes de Carção nos Reis, na quresma, nos teatrinhos na igreja, à sagrada família nas casas das pessoas, no mês de Maio á Virgem, etc, etc, etc. Só coisas boas, A sua hora chegará, e o foturo a Deus pertense, mas os dias que viver em Carção jamais serão por si esquecidos. Acredite
Felecidades
S. A.
desde já quero agradecer a todos: a minha querida familia, aos loucos dos meus amigos e tambem a todos os conhecidos e desconhecidos;tantos elogios, tanto carinho e tanta força e tantas palavras de encorjamento...é muito bom!
sinto-me realmente muito feliz por ter conseguido passar a minha mensagem através desta reportagem,como é obvio que para além de me promover,o meu objectivo era também mostrar que viver e amar a aldeia não é motivo de vergonha mas sim de orgulho,amor e respeito;isto tudo só o consegui graças à minha prima ANDREIA CUSTÓDIO que se lembrou de mim e fez com que este meu singelo discurso aparecesse neste jornal.um muito obrigada e PARABÉNS! carção também deve estar orgulhoso delai!
VIVA CARÇÃO!!!!
por muito pequenos que sejamos,vale sempre a pena falar!!!!
muito obrigada a todos....ENQUANTO O TEMPO QUISER...SONHAR é prioritário!!!!
bisous
Não é, para mim, nada fácil tecer um comentário despido de sentimentos de amizade e dissociado da pele de Presidente da Junta de freguesia de Carção.
O Toni tem o prazer de ser um teu amigo. O Presidente da Junta é uma pessoa que estará sempre disponível para te apoiar na tua incursão pela poesia e pela prosa.
Por mero acaso, estes dois são a mesma pessoa e, quer numa como na outra pele, sinto um orgulho imenso em te ter como amiga e como patrícia.
…Acredito que sejas uma menina/moça/mulher feliz porque nem tu és uma pessoa exigente e, temos que reconhecer, CARÇÃO dá-nos muito do que necessitamos para sermos felizes.
Admiro-te, acredita, pela tua capacidade para trabalhar com os teus pais e, com 21 anos, continuares a viver nesta terra após teres conhecido outras paragens.
Mereces de facto ser muito feliz.
…Estou à espera de ler um capítulo.
Parabéns pela modéstia e pela simpatia e parabéns pelo que dás, pelas obras…, sem pedires.
Minha amiga o amigo estará sempre por perto.
É já uma saborosa vitória ver amigos à sua volta.
Diz o Sr. Prs. da Junta estar à espera de ler um Capítulo!
Eu quero ler o trabalho todo, por inteiro. E irá, posteriormente para a minha biblioteca, bem juntinho a todos os Escritores Transmontanos que tenho orgulho que continuem a teimar em falar da nossa Região.
Pedia-lhe o favor de fazer chegar à Delegação de Vila Real de O Mensageiro.
Ao ir lá buscá-lo, deixarei a importância do custo do seu livro.
E vai ser muito fácil.
Acredite no que lhe digo e depois verá porquê!
É que, por sua causa, eu vou falar de Carção!
Cumprimentos da Serra
Conheço bem essa realidade de T. Montes (Vinhais )
Felizmente que não se esqueceu dessas terras maravilhosas,ao contrário de muitos ilustres (?) que nada fazem pela terra onde nasceram.Continue porque só pode ter sucesso com essa atitude.
Viva Trás os Montes.
Força Sara, desejo-te tudo de bom.
Um beijo com carinho desta que por aqui deixas-te
olha passei agora por aqui só para te desejar tudo de bom..espero que consigas alcançar todos os teus objectivos..
beijo grande fica bem..:)
Continua não desarmes porq as transm. são feitas de fibra rija
Sara,
É com muito orgulho que vejo o teu talento ser apreciado por tanta gente! Fazer esta reportagem foi gratificante para mim, não por seres tu, mas também por divulgar a nossa linda Terra Carção!
Uma rapariga na aldeia, cheia de forças para viver neste mundo tão pequeno, mas com tanto amor para dar!
Agradeço pela parte que me toca. Mas se há alguém que tens que agradecer é a ti, és uma pessoa para recordar!
Adoro os poemas que te levaram ao sucesso! Continua a escrever, nunca pares de escrever, não deixes o teu talento desaparecer!
"Assim vais lembrar-te sempre de nunca esquecer"
Andreia, prima e amiga!
Beijinhos grandes!
Parabéns pela sua coragem de enfrentar um meio tão isolado como Carção. Mas tranquilidade, saúde e generosidade humana é o que aí deve sobejar, felismente. Também tenho raízes dessa terra, que praticamente desconheço. A minha avó materna nasceu aí e quem sabe um dia indagarei sobre os meus descendentes.
Que seja aí muito feliz.
Teresa Ricardo, Esmoriz
muito obrigada pelo apoio.ja ha muito tempo que nao vem a carção?o meu livro pode adquiri lo aqui na aldeia ou entao atraves do site da editora.corpos editora do porto.procure!....muita obriagda mesm!
um abraço
Depois de alguns anos foi a Carção este ano á festa da nossa Padroeira Senhora Das Graças.Este aqno estou a pensar ir também. Sendo assim copro ai. Mais uma vez obrigada. È preciso ter muita força para uma rapariga da tua idade ficar aí na aldeia. Forç2a e muita coragem. Um grande abraço.
23-6-2010