Página Inicial | Quarta-Feira, 8 de Fevereiro de 2012

Boticas // Na rota de... Boticas Por: Ana Teixeira/Frederico Correia / Secção: O Olhar / 23-01-2010 · 2 comentário(s) Imprimir Enviar a um amigo

Foto: Ana Teixeira Caminhos de Boticas palmilhados à lupa
O Mensageiro partiu à descoberta e decidiu pintar o quadro de Boticas, um concelho historicamente protegido pelo Guerreiro Galaico-lusitano, com tradições ancestrais, aliadas à aposta na cultura contemporânea. De gastronomia rica e conservadora, esta

“Ai! Boticas, linda vila transmontana… (…) Quem te deu esses encantos, que são tantos, tantos, tantos.” É assim descrita na marcha concelhia, o que mostra bem o orgulho que os botiquenses têm pelas suas raízes. Uma caracterização de um concelho escondido por entre paisagens únicas, vales de beleza inconfundível, longe da azáfama citadina. Sempre vigiado pelo Guerreiro Galaico-lusitano, aqui vive-se ao som da melodia do tempo que teima em passar a ritmo compassado. E ainda bem que assim é, para se conseguir percorrer os cantos mais recônditos da vila e perceber que Boticas é, sem sombra de dúvidas, a “sedução da montanha”. Ao longo de três séculos de história escrita em páginas de encantos, o concelho barrosão foi crescendo à medida das novas tendências e desenvolvimento tecnológico. Hoje, é uma “terra linda” onde “se vive bem”, salientou Sandra Rosa. Não escondeu, enquanto falava com o Mensageiro, o orgulho que sente pela sua vila. Os monumentos e a Natureza são temas suficientes para que, na época de maior calor, as ruas botiquenses se encham de hábitos e culturas diferentes. Os turistas são às “medas” e aqueles que vêm pela primeira vez “acabam por regressar no ano seguinte”, salientou esta botiquense. O concelho foi assim reunindo algumas das melhores infra-estruturas para melhorar a qualidade de vida e, mais importante, para fixar os mais jovens. A localização, ainda que beneficiada agora com a proximidade à Auto-estrada 24, pode ser um problema ou uma mais-valia, depende do ponto de vista. Para José Moura, proprietário da Casa Rural de S. Cristóvão, a vila sofreu uma “transformação enorme nestes últimos anos”. Mas para ele, Boticas conseguiu manter o seu “carácter rural”, aliado com uma série de “infra-estruturas equiparadas à maioria dos centros urbanos”, o que a demarca na região transmontana. “Ao conhecer Boticas, a sua dinâmica e as suas capacidades, as pessoas passam a gostar e a querer fixar-se aqui”, contou.

O desejo: ser uma referência cultural do Interior

A desertificação tem sido uma das grandes lutas dos responsáveis autárquicos e as acções não têm sido diminutas. Amenizar o aspecto rural e interior de uma vila, situada a mais de seis dezenas de quilómetros da capital de distrito Vila Real, é o intento para garantir “substância crítica” a Boticas, quer a nível cultural, social e económico. “É uma terra acolhedora que tem um conjunto de equipamentos que não são muito vulgares em vilas desta natureza. Tem todas as condições para aqueles que queiram vir morar ou visitar”, garantiu o presidente do município, Fernando Campos. Por entre ruas de sentido único, que, no entanto, vão dar a múltiplos sítios, facilitam a visita. A cada curva que se deixa para trás, apresenta-se uma “paisagem distinta”, que nos envolve e que faz querer continuar. “Costumo dizer, se isto fosse a Suíça toda a gente vinha e acharia muito bonito. Às vezes, temos as coisas ainda mais bonitas à porta de casa e não temos a percepção de as procurar”, sublinhou o autarca. Mas, à medida que o concelho barrosão entra nas “bocas do mundo”, este cenário tende a inverter-se e as pessoas já começam a aperceber-se de que há um “património” na região. Aliando a ruralidade e a geografia de uma “monumentalidade ambiental”, os habitantes de Boticas têm ao seu dispor um conjunto de equipamentos culturais que “oferecem boas condições aos jovens mais exigentes”, reforçou Fernando Campos. O auditório, a biblioteca, o Museu Rural de Boticas, o Repositório Histórico do Vinho dos Mortos, as projecções de cinema “todas as semanas” e o futuro Centro de Artes Nadir Afonso colocam alta a fasquia e corroboram o desejo do presidente da câmara em querer tornar o concelho barrosão numa “referência cultural da região interior de Portugal”. “E vamos sê-lo seguramente, porque não há um mês em que não temos actividades culturais diversificadas”, afirmou Fernando Campos, com a mesma convicção. Acresce a estas iniciativas, as representações do Grupo de Teatro Fórum Boticas que vai apresentando algumas das mais conhecidas peças teatrais, divertindo e preenchendo as noites ora frias, ora quentes desta terra barrosã. “Já começamos a sentir dinamismo na sociedade civil e esta diversidade só nos veio enriquecer”, reforçou.

Uma estadia rural...

À entrada da vila, mais concretamente, junto ao ribeiro de Fontão, situa-se uma das quatro casas de Turismo Rural de Boticas. Numa envolvente única, a Casa de S. Cristóvão está aberta há dez anos e é uma “unidade de gestão muito familiar”, apresentando-se como uma actividade complementar. Datado do século XVIII, este empreendimento foi requalificado para responder a duas necessidades: “a intervenção em termos patrimoniais e para colmatar a falta de alojamento na vila”, adiantou o proprietário, José Moura. Enquanto fazia uma visita guiada ao Mensageiro e mostrava alguns retratos, chegaram hóspedes. Apenas com seis quartos, José Moura vai conseguindo rentabilizar o espaço, favorecido pela época do Verão e pelos eventos promovidos no concelho. “Trazem mais pessoas.”

Pintar na tela a terra barrosã

Não é arte que se aprenda da “noite para o dia”, mas são muitos os interessados em querer saber pintar. Alfredo Cabeleira, pintor flaviense, dirige a Escola Municipal de Pintura de Boticas. Já perdeu a conta aos anos a que se dedica a este ofício, mas aposta nuns 24 anos ao serviço da pintura. Já realizou exposições e agora chegou o tempo de transmitir os saberes aos mais jovens e àqueles que não se deixam vencer pela força da idade. A Escola funciona há três anos e tem, neste momento, cerca de três dezenas de alunos, entre os sete e os 70 anos. “Muitos deles estão na escola como hobby, mas há quatro ou cinco que querem mesmo aprender”, salientou, ao Mensageiro, Alfredo Cabeleira. Os alunos já expuseram os seus trabalhos, mas no recanto da “pintura ao vivo”, no pavilhão que recebeu a Feira Gastronómica do Porco, os aprendizes “recearam” tamanho desafio. Apenas Alfredo Cabeleira e um amigo se predispuseram a mostrar os seus dotes, usando como técnica base o desenho e depois a pintura a óleo.

Desporto e lazer para o bem-estar

Mas não se faz apenas de cultura o concelho barrosão. A actividade física também merece especial atenção não fossem os vários equipamentos construídos para o efeito. “Aqui não falta nada”, acrescentou Fernando Campos, enumerando a piscina coberta para os dias de Inverno e a piscina descoberta para o período do Verão. A juntar a estas infra-estruturas está o Parque Aventura de Boticas, onde os mais destemidos medem forças com a adrenalina e os desportos mais exigentes, o campo de futebol, onde até já estagiaram equipas de futebol americano, e os pavilhões gimmo-desportivos. É num destes equipamentos que todos os dias trabalha uma das referências e marcas do concelho: a equipa de futsal do Grupo Desportivo de Boticas. A militar na I Divisão da modalidade, a equipa tem surpreendido o mundo do futsal e colocado o município nas principais páginas dos meios de comunicação social. “O clube é um ícone para a vila e eu, de 15 em 15 dias, lá vou ao pavilhão ver a equipa”, confessou Luís Marques Mateus, residente da vila.

Tradições únicas de um povo

Num concelho que se encontra em perfeita harmonia com a natureza e, ao mesmo tempo, com o desenvolvimento, também as tradições não foram esquecidas, nem deixadas para segundo plano. Elas constituem a memória do povo e da terra barrosã. A Festa das Papas realiza-se em honra de São Sebastião, na freguesia de Dornelas, e caracteriza-se pela passagem da mesinha de São Sebastião pelas ruas da aldeia. Depois há “Os mortos de Boticas”, o inconfundível vinho produzido na região. Uma das festas mais carismáticas é a do São Cristóvão no Rio, em que, no dia da Senhora da Livração, o orago do concelho, o São Cristóvão, é colocado no meio do rio, com o menino Jesus nos ombros, simbolizando a sua boa acção de transportar todas as pessoas que não conseguiam passar para a outra margem. A Malhada do centeio e do trigo também é uma das tradições que se vai recriando, com os malhadores a empregar toda a sua força nos malhos. Terminados os afoitos, são servidos no final iguarias e vinho, enquanto as mulheres espalham por entre a palha um ramo de flores, acompanhado de pão trigo, chouriço e doce para aquele que o encontrar em primeiro lugar. De gastronomia não se podem queixar os visitantes. A tradicional Feira do Porco aproxima os visitantes a alguns dos melhores paladares dos enchidos da região, confeccionados tradicionalmente. A carne de vitela barrosã, o mel, o presunto e as trutas do rio Beça são outros dos produtos a descobrir em Boticas e que deixarão água na boca para mais uma vez voltar à vila. Muito mais haveria para escrever, mas fica para outros descobridores.

O que achou desta notícia?

2 Comentários Feed

Oserrano · escreveu em 23-01-2010 às 19:04:19
Este Jornal, se continuar a apostar na "leitura" da nossa gente pode muito bem transformar-se no verdadeiro Mensageiro da nossa cultura, realidade e anseios.
Assim o queira, rente à terra e virado para ela.
Parabéns à Jornalista.
..."convidou-me" a ir a Boticas.
mar · escreveu em 09-02-2010 às 19:57:40
Parabéns Alfredo, na tua simplicidade está a tua grandeza. Espero que a tua obra seja reconhecida pois ela é especial, tão especial como tu.
Deixe o seu Comentário

(necessário)

(opcional)

(opcional)

(necessário)

Nota: Os comentários são da exclusiva responsabilidade dos seus autores.


Login de Assinantes //

  Recuperar password

Última edição em PDF
Edição 3354 - 02 de Fevereiro
Publicidade // Anuncie aqui... Estatísticas das notícias // Últimas notícias por secção //