Distrito de Vila Real // Viagem ao mundo de sonho Por: / Secção: O Olhar / 10-12-2009 Imprimir Enviar a um amigo
Não se lastimam, não procuram compaixão, não se incluem no grupo dos derrotados, nem tão-pouco dos que desistem de viver. Fazem-no à sua maneira e vivem felizes como toda a sociedade. E não vale esquecer: “todos nós temos um handicap qualquer”“Uma mão ajuda a outra. Se fôssemos todos iguais não havia pessoas especiais”. É com este sentimento que todos os dias técnicos e profissionais das oito instituições de solidariedade social se levantam e iniciam mais uma jornada em que ensinam e são ensinados. Trabalho árduo, mas que no fim é recompensado pelas mostras de alegria e carinho dos utentes que compõem cada instituição. Trabalho esse muitas vezes irreconhecível pela população, bem como as actividades desenvolvidas por aqueles a quem a vida não quis que seguissem a norma, aqueles a quem a vida deu um caminho diferente, mas não menos digno e meritório de a viver.
A 3 de Dezembro de 2009, assinalou-se o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência e a noite ficou marcada por uma grande dose de arte, envolta de alvoroço e de glamour. Pelo Grande Auditório do Teatro de Vila Real passaram cerca de 300 artistas de todas as idades de oito instituições do Distrito de Vila Real. O “nervosismo” era o sentimento imperante, não fossem as cinco centenas de pessoas que encheram os lugares da plateia. “Já está esgotado”, dizia a recepcionista de serviço aos mais desatentos, que guardaram para o último minuto a compra do bilhete. Tivesse o Grande Auditório mais lugares disponíveis, pois não ficariam vazios, nem de público nem de emoções.
Bastidores: preparar para arrasar
Uma das coordenadoras do evento, Paula Proença, era a “bombeira de serviço”. Sempre numa correria, a educadora da APPACDM de Sabrosa não parava por um minuto ao ser solicitada por todos para solucionar os imprevistos que iam surgindo. Recebeu o Mensageiro na entrada do Teatro e levou-o aos bastidores. Mesmo assim, nem uma respiração ofegante a impedia de relatar tudo o que estava a acontecer.
Depois de subidas as escadas batemos à porta. Um conjunto de fatos pendurados na maçaneta disfarçada de cabide impedia a entrada, mas depressa a agilidade e boa vontade imergiu de João Rodrigues, utente da Nuclisol Jean Piaget de Vila Real, em nos facilitar a passagem.
Divertidos, amorosos e com um incrível à-vontade. Assim se podem caracterizar, em grosso modo, os cidadãos que integram as respectivas instituições. Lurdes Queirós veio do camarim saber quem era o intruso e mal o viu, abriu os braços com um sorriso de orelha a orelha e agarrou a jornalista de serviço num abraço profundo e sentido durante longos segundos, acompanhado de dois beijos. A alegria de viver cada dia como o início do seguinte e assim até novo momento de convívio, onde podem mostrar os seus dotes. No teatro, de representação de ideias e ideais, de valores e capacidade comuns, se vai eliminando o vazio de alguma falta de reconhecimento social. “Somos iguais aos outros, mas as pessoas não dão valor a isso”, suspirou Miguel Sequeira, utente da APPACDM de Sabrosa.
Também num veloz corre-corre, Rosa Morgado, educadora do Nuclisol Jean Piaget de Vila Real, respondia à solicitação de entrevista: “é muito difícil? É que hoje não estou capaz!”. Um sentimento que se distribuía a todos não fosse o dia de espectáculo. Foi com “alma em movimento” que as pessoas desta instituição transmitiram as “dificuldades que temos na vida, nós todos, em concretizar aquilo que sentimos e sonhamos, a parte da alma”, confessou. Ao longo de um corredor onde uns afinavam os últimos passos e outros conversavam para afugentar o nervoso miudinho, Rosa Morgado sublinhou a importância das galas para mostrar à sociedade que são “seres humanos e adultos com capacidades para fazer coisas brilhantes”. Sandra Cristina, Ana Sequeira e Isabel Pereira tinham em comum aquele estado de ansiedade que invade os verdadeiros actores, aqueles que não querem falhar e decepcionar os aficionados, pois há “sempre algo que pode correr mal”.
De um piso para outro mudavam os protagonistas, mantinha-se a correria, aqui mais acelerada, porque estávamos entre os primeiros a entrar em cena, a APPACDM de Sabrosa. Embora já estivessem todos vestidos a rigor, faltavam ainda os últimos preparativos. A educadora Áurea Pimentel dava as últimas indicações, relembrando o desenvolvimento da actuação e os artistas recapitulavam os movimentos. De um lado gritava-se “cuidado com as pinturas”, do outro ouvia-se os sons e os passos da peça, e ainda do outro lado aqueles que não queriam desfazer o jus ao seu papel, ajustando as suas vestimentas para que nada desobedecesse à norma artística.
“Só quem está no meio é que sabe o que isto é em termos emocionais… é inexplicável.” Áurea Pimentel abraça o projecto desde o seu início e já viveu momentos especiais. “Todas as pequenas coisas que fazem, eles ficam contentes, mas nós ficamos ainda mais”. Ao longo de anos, vão-se criando laços e afectividades, uma “segunda família” que vai cimentando uma “ligação forte”. “Esquecemos tudo o que acontece lá fora, porque eles são mesmo muito especiais”.
Ainda faltavam uns bons 35 minutos para o momento alto e já todos estavam “na maior”, vestidos e preparados para representar “várias histórias de encantar”, em que cupidos, carochinhas, animais e anões, personagens que fazem parte do imaginário de crianças e adultos, foram a ponte para as pessoas “tirarem algumas ilações”.
Os dias de preparação foram “complicados”, entre a criação dos adereços, os ensaios, mas a “parte emocional consegue ser mais forte que a física e nós vamos arranjar forças neles”, reforçou Áurea Pimentel.
Percorremos o piso e demos de cara com a indicação “APCVR”. Batemos. De fora ouvia-se o som estridente, típico em bastidores, a lado com o ruído de caixas, ora com adereços, ora de garrafas de água, a serem recolocadas no seu devido sítio. A professora de educação física da Associação de Paralisia Cerebral de Vila Real (APCVR), Natércia Padilha, estava num êxtase ao ponto de já nem se lembrar do nome da peça – “I dance for you” –, mas ciente de que todas as pessoas “têm os seus défices e dificuldades”. “Ver o que eles conseguem fazer é extraordinário”, salientou com um sorriso, acrescentando que eles já estão a “começar a pensar em ensaiar para o Natal”.
“Não discrimines, integra!”
O lema foi claro e todos o respeitaram e seguiram à letra. Aplausos iniciais descansaram os mais nervosos a quem a espera por detrás da cortina vermelha aumentou os níveis de adrenalina, como se de um espectáculo de dimensão nacional se tratasse. Os receios, os sentimentos e a azáfama foram vivenciados de forma semelhante a tantos outros. Nem mais, nem menos.
O palco já estava preparado para os primeiros protagonistas da noite. Do outro lado, as 500 cadeiras estavam ocupadas. Ninguém quis perder pitada do evento. A espera fez com que Paula Proença, a apresentadora do sarau, percorresse umas quantas vezes o palco de uma ponta à outra. Aprumadinhos para entrar estavam os da APPACDM de Sabrosa, alinhados à semelhança de uma parada militar. A dupla das carochinhas, Vânia Guerra e Ana Sofia, antes nervosas, no palco mostraram toda a sua classe mesmo na fila da frente.
À medida que as associações iam passando pelo palco, todos os intervenientes deixavam como que uma mensagem de alerta, uma mensagem que deu uma lição de vida. O nervosismo passou mal pisaram o centro de todas as atenções, ora não estivessem eles guiados pelo “mundo de sonho e luz que move montanhas e vales”.
Alegria final
A Associação Flor do Tâmega encerrou a gala com toda a “realeza” em palco, já depois de terem desfilado também os artistas da APPACDM Valpaços, da ACAPO, da CADAT da Misericórdia de Boticas e da ARDAD de Peso da Régua e os músicos da SARAVA do Porto. O fim, esse não estava na mente do público que, quando se apercebeu, levantou-se e aplaudiu durante largos minutos todos os utentes das oito associações. O palco encheu-se de cor, vida e animação. “Este espectáculo foi a afirmação da capacidade das nossas instituições e uma mostra exuberante de como os nossos deficientes são capazes de fazer arte, cultura e de exprimir na sua singeleza e na bonomia o belo”. “Um espectáculo”, resumiu em poucas palavras o Governador Civil do Distrito de Vila Real, Alexandre Chaves.
Para Paula Proença, a gala foi o “culminar de uma excitação que percorreu as instituições nestes últimos dias, mas que não acaba aqui”. “Agora é preciso que todos se acalmem, porque fizemos muitos amigos e é isso que importa, que se sintam bem uns com os outros.” Todo o êxtase vai “servir de tema para muitos dias de conversa e é importante que as instituições se mostrem capazes, fortes e seguras e é isso que somos”, salientou Paula Proença, afirmando que todos são “verdadeiramente felizes”. Entre os artistas, o sentimento era “o espectáculo da vida continua!”

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