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Vila Real // O último Quarteleiro Por: Frederico Correia / Secção: O Olhar / 27-11-2009 · 3 comentário(s) Imprimir Enviar a um amigo

Foto: Frederico Correia
A vida daquele que já não é, mas foi o quarteleiro da Corporação dos Bombeiros Voluntários da Cruz Verde durante cerca de meio século

Uma profissão da qual já pouco resta e aqueles que ainda persistem estão prestes a ser “arrumados na prateleira”. Quarteleiro numa corporação de bombeiros era significado de “um faz tudo”, ou como classificou o nosso protagonista era uma “pessoa que tinha jeito para capar e assobiar ao mesmo tempo”, contrariamente ao que diz o velho e sábio ditado: “enquanto se capa não se assobia”... O Mensageiro arriscou conhecer a vida daquele que já não é, mas foi o quarteleiro da Corporação dos Bombeiros Voluntários da Cruz Verde durante cerca de meio século. Os seus quatro nomes são comuns, mas poucos são aqueles que os conhecem de cor. Na verdade, consta em identificação Artur Fernandes Carvalho Costa, “rijo” e pronto a fazer 79 anos. Mas dentro e fora do quartel, onde o seu estatuto granjeou respeito, todos o tratam por “Chefe Artur”. Enquanto se espera que regresse dos Correios, percurso que faz, quase religiosamente, todos os dias para “tratar da correspondência da corporação”, ouvem-se histórias e contam-se as peripécias de mais uma noite de piquete ao serviço do próximo. Alguns minutos de espera e pela porta entra acelerado o ex-quarteleiro. Dos presentes há o cumprimento geral, mas dotado de um respeito invulgar. Não fosse este “um dos homens que mais fez pela casa” e um dos elementos da corporação que se pode gabar e ostentar um Crachá de Ouro, símbolo da dedicação aos bombeiros, e seria motivo de estranheza. Disposto a “despachar” a entrevista e não deixar os amigos pendurados, o Chefe Artur lá começa por desvendar. Trabalhava ele na construção civil, “era pouco mais de meio artista”, e foi recrutado para o ofício já depois de cumprir o serviço militar. Era também ele bombeiro e trocou a construção civil pela vida de quarteleiro. Primeiro ponto e a pedido do Chefe Artur, que fique o reparo de que a definição de quarteleiro quase não existe. “O quarteleiro tinha por missão morar no quartel, porque era o homem que desempenhava todas as tarefas que agora são desempenhadas pelo chefe da secretaria”, garante antes de acrescentar a segunda metade da resposta: “mas funcionava como uma espécie de bombeiro profissional. Era motorista, combatia fogos, servia de bombeiro para todo o serviço, era parteiro quando tinha de ser e até guiava cerimónias fúnebres”. A isto tudo, juntava-se a tarefa de “governar” a corporação, ao mesmo tempo que governava a sua casa. “Recebia as facturas e ficava com elas durante dois ou três meses até que o tesoureiro viesse aqui fazer contas. Tinha de ter cuidado se, quando ia tomar café, ia pagar com o meu dinheiro ou dos bombeiros, porque não podia faltar um escudo.” Assim se percebe mais um pouco sobre uma profissão, que implicava que a esposa servisse de telefonista no quartel. “A minha mulher é que tinha de estar como telefonista e, quando queria ir, por exemplo, ao mercado, ela tinha de arranjar alguém que ficasse aqui, caso contrário não ia. Olhe que não era fácil.” Quanto ao ordenado, “não era mau”, mas também nada de “extraordinário”. Ora vejamos. O Chefe Artur ganhava na altura “uns 750 escudos por mês”, o que era bom atendendo à época, mas muito a baixo daquilo que auferiam os “motoristas da câmara”. “Esses ganhavam cinco mil escudos, por isso, ao que fazia, não era fortuna.”

Ossos do ofício

Sendo ele responsável por tudo o que corria pelo quartel, o então quarteleiro tinha de estar sempre a postos e, sobretudo, próximo do seu posto de trabalho. “Se tivesse de sair por algum motivo, tinha sempre que deixar alguém da minha patente a tomar conta do serviço. Nessa altura, tinha mais cuidado em dizer a quem me substituía, que era o meu amigo Rebelo das bicicletas, do que dizer ao comandante.” E a justificação é simples: “não era o comandante que me substituía e quem podia tapar buracos era o meu amigo”. Porto, Lisboa, Coimbra foram algumas das cidades onde passou como bombeiro em missões, mas também pisou solo estrangeiro, como Espanha, França e outros países que a memória já não trás tão rapidamente. Tudo sempre em serviço. Será difícil compreender, mas a obrigação de levar doentes a outras cidades implicava muitas das vezes que se tivesse de pernoitar numa outra cidade. “As coisas eram diferentes. Agora vamos e vimos no mesmo dia se preciso, mas naquela altura bem tínhamos de dormir num quartel qualquer.” São estas passagens que dão ainda maior garante de “experiência marcantes” na sua carreira. Quando questionado sobre algumas, o Chefe Artur deixa logo o aviso que “multiplicam-se como os cogumelos”. Mesmo assim arriscamos. “As histórias são muitas, porque só de ir ao Porto antigamente era uma aventura. Imagine a estrada antiga e acrescente-lhe os carros antigos. Pode concluir que histórias não faltam.” Desarmados à partida, começamos a ouvir uma e acrescenta-se outra e depois mais uma. Cresce o entusiasmo, mas também a dificuldade em escolher qual daquele leque será a melhor para contar. “Sempre que tinha de dormir no quartel do Porto, eles perguntavam: ‘Sr. Artur, você sai se houver piquete?’. A resposta era sempre: ‘já sabeis’”. Por isso, ajudou no combate aos incêndios nas faculdades de Letras e de Farmácia, mas também na Casa Coelho. Outros momentos marcantes foram “alguns naufrágios” no Douro. Mesmo não sendo a água a sua especialidade, quarteleiro era, numa outra definição, “bombeiro para toda a missão”. Como resultado, nem sempre a noite que serviria para descanso era passada a dormir, mas trocada por incêndios ou piquetes para juntar ao livro de memórias. “Confesso que ia sempre feliz da vida.” Não se pense que as aventuras acabam por aqui. A eleição das memórias do Chefe Artur tem de ser para aquela que o mesmo conta a toda a gente. Numa viagem de Vila Real a Lisboa, numa comitiva da corporação da Cruz Verde, para dar apoio ao antigo Governando Civil Espírito Santo, que tomaria posse no dia seguinte, deu-se a “tal história”. “Nós levávamos uma encomenda de fumeiro para deixar no quartel de Coimbra. Chegámos lá, estávamos a parar o carro quando cega um táxi: ‘Rápido que um rapaz caiu ao rio Mondego’.” Soou o alarme, a corporação local toca a juntar elementos. Porém, o tempo podia significar um salvamento com êxito ou a recolha de um cadáver. “A nossa comitiva tinha a equipa já dentro da carrinha, éramos bombeiros, por isso, arrancámos mais depressa que os bombeiros de Coimbra, chegámos à margem do rio e procedemos às operações de socorro. Ainda antes de chegarem os colegas de Coimbra já tínhamos salvo o rapaz.”

“O bombeiro de agora e o bombeiro de antigamente”

Com o saber da experiência e do alto do estatuto que granjeou dentro e fora do quartel, o Chefe Artur é desafiado a desvendar as diferenças entre o antes e o depois na vida da família dos bombeiros voluntários. “Com todo o respeito, isto agora é coisa simples, têm uma vida mais desafogada”, afirma entre sorrisos. Depois justifica: “primeiro, os bombeiros que vinham para acudir ao fogo iam para lá com o calçado que traziam, alguns deles de chinelos, sapatilhas ou sapatos de domingo”, refere. E se dúvidas houver, ficam mais alguns exemplos de como antes “tudo era mais difícil”. “Agora há bons equipamentos, bons carros. Antigamente, o bombeiro apagava o fogo e depois nem água quente tinha para tomar um banho, ia assim para casa”, sublinha. Ou então, as dispensas das entidades patronais, “embora às vezes alguns não querem cumprir”, e a isenção das Taxas Moderadoras. “Mas temos que ver, se assim não fosse não tínhamos bombeiros voluntários no tempo de hoje”, reconhece. Enquanto a saúde o permitir, o Chefe Artur continuará a subir e a descer as escadas daquele que “foi o seu quartel” e a viajar para conhecer novas corporações e dar continuidade à sua colecção de capacetes de bombeiro. Mesmo que um dia venha a desaparecer aquele que foi o último quarteleiro dos Bombeiros Voluntários da Cruz Verde de Vila Real, certo e garantido estará sempre o seu espaço no museu da corporação.

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3 Comentários Feed

Uma vilarealense apaixonada pela sua terra e pelas suas gentes! · escreveu em 27-11-2009 às 17:36:27
Foi e será o "dono do quartel", tal como ele afirma na noticia supra mencionada.
Conhece os cantos da casa como ninguém e foi um escudeiro sempre fiel a todos os que por lá passaram, e que foram tantos (que deixaram saudades) e aos que ainda vão passando.
Em tempos idos que já não voltam, a sua presença tal como a de muitos era indispensável e hoje tal como outrora todos os vilarealenses orgulham-se desta Corporação que tanto fez e tem feito pela "nossa terra"!
A todos os que por lá passaram, e que continuam a passar e passarão no futuro um bem haja!

fernanda magalhaes · escreveu em 28-11-2009 às 00:31:43
quero saudar esse grande amigo pois ao ler revi os meu momentos de infancia onde fui tambem criada dentro do quartel de bombeiros da cruz branca filha do quarteleiro magalhaes foram anos bem dificeis nao so par eles como para as esposas e filhos hoje tudo mudou ainda bem tudo é mais facil um grande abraço a esse grande amigo foi e sera um grande Homem FM
bento · escreveu em 30-11-2009 às 22:07:51
gostei mto de saber que ainda se da valor a quem o teve tem e terá smp numa coorporação de grande orgulho como as cruz verde

abraços a todos os meusamigos
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