Vila Real // Menos seminaristas, maior vocação Por: / Secção: Igreja / 06-11-2009 · 2 comentário(s) Imprimir Enviar a um amigo
Entre 8 e 15 de Novembro, assinala-se em Portugal a Semana do Seminários e o Mensageiro fez uma viagem ao interior do Seminário Menor de Vila Real. Actualmente, tem a seu cargo 36 alunos, e 14 inscritos no Seminário Maior do Porto, cidade onde estudam na Faculdade de Teologia da Universidade Católica, e tem um total de seis estagiários, um dos quais diácono. São números que afastam a realidade contemporânea de tempos idos, em que o seminarista, mais do que um caminho para a fé, se refugiava no seminário pela “garantia de um futuro”. Embora se mantenha a certeza na “formação de homens”, já não são tantos os candidatos. O actual reitor da Seminário de Vila Real é o Bispo Coadjutor D. Amândio Tomás e, sem rodeios, explica que, numa sociedade que mais do que anti-cristã é agora indiferente à religião, regista-se um menor número de padres, mas não é este um factor de menos força da igreja. “Com menos padres até se poderá fazer mais e melhor.” Num mundo global, os jovens são colocados num patamar de diferente exigência. Se em tempos seguiam poucos exemplos, actualmente defrontam-se com “uma feira de propostas”. Perante isto, é “preciso mais discernimento e mais coragem”. Contundo, D. Amândio Tomás afasta o cenário como seja de crise ou tempo de lamentos para a igreja católica. “A igreja forma-se nas tempestades, nos períodos de conflito e um clima laico e demolidor, para aqueles que o aguentam até ajuda à sua formação.” A pressão social é então entendida como um factor para a diminuição de sacerdotes, mas deixa de ser, por outro lado, a certeza de que, “embora naturalmente menos, porque os mais fracos vão na onda do comum, quem segue o sacerdócio ordenado fá-lo por convicção”. Ainda comparativamente ao tempo em que o seminários estavam mais completos, o reitor de Vila Real assume outra diferença como possível razão para a diminuição de inscritos. “Quando entrei no seminário em 1955, entrámos cerca de 70 e chegámos uma minoria à ordenação. Não havia escolas nas aldeias, apenas nas grandes cidades e o seminário tinha essa componente de ensinar.” Apesar do número reduzido de ordenados, ficou disso a garantia de uma sociedade melhor, porque o seminário é: “formar pessoas”. “O caminho que depois cada um segue, a ele diz respeito, porque a igreja é o conjunto de cristãos e não apenas o papa, os bispos, ou os padres”, explica D. Amândio Tomás, acrescentando que “não é um drama, porque foram formados para a sociedade”. Hoje em dia, o ensino está mais acessível e também os seminários abriram as portas aos seus alunos. Os seminarista frequentam hoje a escola pública e, com isso, “inseridos no mundos e ligados ao que os rodeia”, o que também pode ajudar a encontrar vocações. Independentemente do local ou data, parece haver um denominador que não muda. “Todos recebemos um apelo a aderir a uma pessoa e seu projecto”, no caso do sacerdócio ordenado é uma vida de paixão a Jesus Cristo e à sua missão, o Evangelho. Apesar de ter menos inscritos do que em outros tempos, o Seminário Menor de Vila Real tem o orgulho de ter subido de 31 para 36 alunos no presente ano lectivo. Se no futuro se registará novo aumento, “só Deus sabe”. Quanto a certezas, apenas a da continuação de uma educação voltada para fé e valores do Homem.
Crescer num seminário
Em tempos idos seria mais comum encontrar um seminarista. Actualmente, são quase uma raridade, mas não se sentem “nem mais, nem menos” do que o comum dos cidadãos. O Mensageiro foi conhecer melhor os alunos que dão forma ao Seminário Menor de Vila Real e comum aos cinco entrevistados encontrou o prazer em falar de “uma escolha pessoal”. Entre eles estabelecem e seguem a ordem de entrevistados. “Começamos pelos mais novos”, ditam os mais velhos de forma alegre e cúmplice com os restantes. Toca então a Daniel Moura, com os seus curtos 14 anos, começar por desvendar porque deixou a sua terra de Pitões das Junias, em Montalegre, para ingressar no seminário já lá vão três anos. “Tomei conhecimento a partir de um primo que já aqui andava, convidou-me e aceitei”, afasta a questão com a agilidade de ensinar aos mais crescidos. A estudar no 9º ano, numa escola pública da cidade de Vila Real, o pequeno seminarista decide abrir o “jogo” e explicar: “eu quero mesmo ser padre, se não, não vinha”. De ar empolgado face aos risos dos companheiros, Daniel desvenda que a ida até Montalegre acontece apenas de duas em duas semanas, o que representa uma festa à sua chegada. “Quando lá chego as pessoas mais idosas gostam de me perguntar como estão a correr as coisas aqui no seminário e apreciam que eu queira ser padre.” Igualmente pelo 9º ano de escolaridade está Miguel Santos, que ingressou há dois anos no seminário, tinha então 12. Também ele foi “chamado” para a vida de seminarista pelo facto de ter “um amigo, um familiar, ou um conhecido” no seminário. “Tinha um amigo aqui e ele falou-me bem do seminário, do ambiente e de como as pessoas são muito unidas. Depois de um estágio de três dias decidi que gostava de ficar”, esclareceu este alijoense. Mais ponderado e de postura a respeitar o estatuto de mais velho entre os três caçulas, Pedro Evangelista dá maiores contornos às suas respostas e mostra claramente que os seus 16 anos, seis dos quais como seminarista, lhe dão “mais estofo e maturidade”. Vindo de Valpaços, Pedro Evangelista entrou para o seminário pela mão de amigos que já eram alunos. “Disseram-me que o seminário ajudava a formar, quer intelectualmente quer espiritualmente, por isso, decidi entrar para aqui”, esclarece. Para o futuro, o sacerdócio é a sua prioridade, mas a decisão definitiva não a reserva a si: “só deus sabe”. Apesar de ter ficado “mais ligado à vida eucarística” depois de conhecer o “mundo novo” onde vive, Pedro Evangelista não se apressa em responder, nem em traçar rotas. “Ainda espero para saber qual a minha vocação.”
O seminarista à “civil”
Transversal às vidas dos três jovens está a amizade e companheirismo que os liga, mas também uma vida “igual à de tantos outros”. Actualmente, o seminário já não comporta alunos suficientes para formar turmas de ensino e, por isso, os seus seminaristas frequentam a escola pública. Nada que atrapalhe os jovens. Sem grande rodeios e de resposta pronta, a despachar mais uma pergunta que teima em atrasar o regresso à escola depois de almoço, o pequeno Daniel esclarece o que os amigos “não seminaristas” mais vezes lhe perguntam. “Normalmente perguntam-me se aqui se come bem”, dispara como exemplo, acompanhado de uma gargalhada extensível aos companheiros. Mais sério, Daniel lá acrescenta que são perguntas “normais” e apenas por curiosidade. “Nunca senti grandes problemas, nem me lembro que me tenham chateado por andar no seminário.” Pedro Evangelista, à mesma pergunta, dá igual resposta. “Ao início perguntavam-me muitas vezes o que muda na nossa vida quando se entra para o seminário e como é viver aqui dentro.” Depois de esclarecidos, afastada a curiosidade e desmitificadas algumas ideias dos seus amigos, Pedro Evangelista passou a ser apenas mais um aluno. Porque a idade assim o impõe, a pergunta quanto a se o grupo de amigos também engloba amigas, Pedro Evangelista não estranha e responde com um: “é normal”. “Apenas temos de pensar que estando aqui temos outras responsabilidades”, retorquiu, sem margem para mais questões.
Culto a deus, corpo e mente
O dia-a-dia dos mais novos não difere em muito. Pela manhã, conhecem algumas das regras para “formar homens”. Cada um é responsável pelo seu quarto e como tal de o manter a modos de uma inspecção, se for esse o caso. Disso nem sempre se lembra o pequeno Daniel. “Tenho de fazer a cama... às vezes”, confidencia, deixando em aberto que nem sempre cumpre com a obrigação. Mais comportado, pelo menos aparentemente, Miguel Santos esclarece que, após a “alvorada”, há a primeira oração do dia. “É sempre às 7h30, antes de irmos para a escola.” Já depois do almoço e de novo período de aulas, há que reconfortar a barriga e dedicar algum tempo a uma das actividades preferidas da maioria dos seminaristas. “Depois do lanchar seguimos para mais uma partida de futebol”, esclarece Miguel Santos, acrescentando que “é o que mais gosto dá fazer”. Em seguida, há que dar tempo aos estudos, para “garantir sucesso escolar e desenvolvimento intelectual”, antes de assistir à missa das 19h30. Já depois do jantar e ainda antes do terço, rezado às 22h, há tempo para nova passagem pelo livros. Segundo os jovens, esta é somente uma rotina a que se habituam e o importante é que todos saem reforçados a nível físico, psicológico e espiritual.
A meses da ordenação
A “supervisionar” as palavras dos mais novos, Adão Moura e Carlos Rubens assumem o papel de “mais velhos” nesta pequena conversa. Os mais novos sentem-se à vontade, mesmo sabendo que estão diante de dois “estagiários”, a pouco mais de um ano de serem ordenados padres. Adão Moura, de 24 anos, partilha a vida de seminarista com o amigo Carlos Rubens desde que ambos entraram para o sétimo ano de escolaridade, tinham apenas 13 anos. O primeiro deixou os Pisões, em Montalegre, enquanto o segundo deixou Ribeira de Pena. Ao todo seriam 35, dos quais apenas quatro chegaram ao final do ciclo como seminaristas. “No meu ano, houve vários colegas de Montalegre que pensaram em vir e então também coloquei essa opção para mim”, confidencia Adão Moura. Daí até à adaptação de uma vida dedicada a Deus foi um passo. “Adaptei-me às regras e fui descobrindo a minha vocação ao longo do tempo.” Mais descontraído, Carlos Rubens lembrou que a vinda para o seminário se ficou a dever à “habitual festa das famílias”. “Vim até aqui porque tinha um primo e passei o dia a jogar futebol. Disseram que jogavam todos os dias e decidi vir até cá”, desvenda entre risos. Depois, mais sério, explica que a “vocação é um caminho”. “Quando entrámos não tínhamos certeza de querermos ser padres, com o tempo isso foi-se tornando mais claro.” Capazes de dar diferentes respostas, estes dois futuros sacerdotes aproveitam para dar conselhos aos mais novos sobre o tema “quero ou já não quero ser”. Considerando “uma radicalidade de vida”, Carlos Rubens e Adão Moura consideram normal e mais frequente durante a adolescência, o confronto consigo próprios sobre a vontade de desistir de “uma vida a servir a deus”. “Por vezes perguntamos se é mesmo isto que pretendemos. Não é todos os dias a mesma certeza, principalmente para os mais novos”, garante Adão Moura. Perante isto, e já sob um olhar mais atento dos pequenos caçulas, Carlos Rubens assume o posto de “Perfeito do 7º ano” e dá o aconselhamento. “Quando se acorda e se pensa: ‘será que quero mesmo ser padre?’ Nesses momentos, tem de haver muita oração. Não podemos tomar uma decisão de um dia para o outro. Temos antes de pensar muito e rezar bastante. O segredo é a oração que deve ser o centro da nossa vida e, por isso, a vocação tem de ser sobretudo rezada.” Perante tais palavras, o ambiente torna-se mais tenso, mas logo desanuviado pelos mais velhos. “Não se preocupem que ainda é cedo para vocês fazerem a vossa escolha.” Actualmente, Adão Moura está como estagiário na freguesia da Campeã, no concelho de Vila Real, e olha para este passo como “outro dos mais importantes”. “Esta é a nossa última fase de preparação para fazer aquilo a que nos propusemos, ser padre.” Para Carlos Rubens, é neste estádio de desenvolvimento que se aprende. “Estudar teologia não é garantia de saber tudo, porque é a prática que nos dá maior conhecimento.” Já em tom mais brincalhão, voltando-se para os aprendizes, o futuro padre lembra que “numa paróquia tem de se ir vendo o que se deve fazer, mas também o que não se deve fazer”.
A família, o primeiro seminário
Comum a todos os entrevistados não está o facto de as famílias apoiarem ou não, mas a renitência e desconfiança em saber se a decisão dos então pré-adolescentes será a melhor. Para Carlos Rubens e Adão Moura o “primeiro seminário tem de ser a família”. “A família deve ser a primeira ligação à fé. Depois disso, o seminário tem por missão formar quem realmente se sente chamado por Deus”, assume Carlos Rubens. Já Adão Moura reconhece no núcleo familiar o apoio e a base para uma decisão de “ligar a vida à fé”. “A família é a base religiosa, com as idas à missa, o incentivo a participar nas eucaristias.” No entanto, para o barrosão o seu ingresso no seminário não foi visto com bons olhos. “Não que não quisessem que eu fosse padre, mas ter de sair de casa com 13 anos, vir de Montalegre para Vila Real, deixou-os na dúvida”, desvenda Adão Moura. Já para Carlos Rubens, “as famílias devem apoiar os filhos nas suas escolhas” no entanto reconhece a legitimidade em que se interroguem: “Será que ele sabe o que quer? Afinal, é somente um rapaz com 12 anos.” No caso dos caçulas, todos tiveram de enfrentar algumas reticências em casa. Quem mais sentiu foi Miguel Santos, cujos pais, em Alijó, ficaram tão surpreendidos que “lá acabaram por apoiar, só depois de algum custo”. Já o pequeno Daniel, saiu de Pitões das Junias empolgado pelo apoio dos pais, que “acharam bem poder ter um filho padre”. Pedro Evangelista pôs a questão noutros termos, ou melhor, respondeu em outros moldes aos seus pais. “O Seminário, acima de tudo, serve para formar homens e, só depois do aluno se deixar envolver pelo ambiente eucarístico e espiritual, é que decide o quer ser”, frisa. Neste momento, ele mantém a convicção que tinha inicialmente. “Nesta fase, quero ser padre.”
A candidatos a seminaristas...
Quando pedido um conselho para os que pretendam seguir um rumo idêntico, os cinco seminaristas são unânimes. “Experimentar e decidir” parece ser o pensamento a passar aos que tiverem indecisos. Uma certeza é de que, “quem entra num seminário não tem de sair de lá padre, mas apenas terá uma oportunidade para saber se o quer ser”, descansa Adão Moura os potenciais seminarista. Também Carlos Rubens, num papel assumido de pedagogo, lembra as palavras do Papa Bento XVI que disse aos jovens: “não tenhais medo, porque Deus não tira nada, dá tudo”.
História do Seminário de Vila Real
Foi no ano de 1930 que o Seminário de Vila Real, edificado no antigo convento de Santa Clara, recebeu os primeiros alunos. Desde esse ano que centenas de alunos passaram pelo Seminário, tendo este funcionado como Seminário Maior e Menor e onde era comunicada toda a formação humanística, científica e espiritual. Em algumas disciplinas mais teóricas e específicas, todos os docentes provinham de universidades católicas, como a Gregoriana em Roma, tendo sido, durante alguns anos, a única instituição de ensino superior no distrito vila-realense. Contudo, a partir do ano lectivo 1966/67, o Seminário de Vila Real conhece um novo período na sua história. A partir daqui, os alunos do Curso Teológico passaram a ingressar no Seminário Maior do Porto, passando o Seminário de Vila Real a Seminário Menor, funcionamento este que se tem mantido até à actualidade. Hoje, esta instituição tem demonstrado a sua importância para a diocese e para todos os padres e leigos que viveram e estudaram no Seminário de Vila Real.

Estatísticas das notícias //
2 Comentários
Há quarenta e seis anos, desde1963, que, num dia e durante um período fixo, se reza, mundialmente, e de um modo particular, pelas vocações. Nessa altura, e já menos, ainda os Seminários estavam cheios. Todavia, as vocações estão, mais que nunca em crise. Até então, Deus manifestava as suas preferências através da crise monetária – nos Seminários, os estudos eram mais baratos. Se a Vocação é uma predilecção de Deus, se “Nossa Senhora é mãe especialmente dos sacerdotes e das almas consagradas”, se depende do chamamento predilecto de Deus, se é “ dom divino especial”, “iniciativa divina, peculiar iniciativa de Deus… bem como da resposta livre do homem”, qual a causa de os Seminários estarem vazios?
Não será, precisamente, pela fasquia tão alta, tão divina, tão exclusiva em que a vocação é apresentada?
Será porque já não é “Deus a tomar a iniciativa, nas famílias e nas paróquias, nos movimentos e nas associações empenhadas…?” Porque estas não rezam?
Será por isso tudo e por outras razões, mas para mim: 1º. Não há vocações porque não há cristãos…”vocação universal à santidade, onde, a peculiar iniciativa de Deus escolhe alguns…”2º. Para que os haja, a Igreja tem de arrepiar caminho na Pastoral, na formação, mentalização, actualização dos padres que já tem e descobrir novos caminhos e alargar o leque para os que hão-de vir. Para isso, talvez ainda bastasse tirar o Concílio Vaticano II das estantes. O ano Paulino e o cinquentenário do Cristo Rei teriam sido uma boa oportunidade, além das conferências e encontros de e para elites, e dos actos televisivos e oficialmente representados, a acrescentar, agora, o Ano Sacerdotal que, mais que dirigido e orientado aos sacerdotes, o devia ser às famílias, às Comunidades paroquiais, aos Movimentos de Leigos, fazendo parte e participando nas equipas sacerdotais, nomeadas para o referido Ano.
Se o Espírito Santo assiste a Sua Igreja, e eu acredito que sim, esta não deve ter medo, mas Fé e ir à frente dos acontecimentos e não a reboque destes e das urgências ou do “tem que ser”…Também aqui, “a ineficiência da Igreja é um pecado”.
Esta crise vem manifestando-se há muitos anos e é a prova provada de que a mudança de rumo, não de Mestre, de alguns padres, não foi, infelizmente, “uma aragem passageira”…mas um sinal, ainda não levado a sério.
É de louvar a preocupação, neste artigo, de “formar homens” que deve vir já das famílias e das próprias escolas – dispensando, talvez os Seminários Menores. Se, comunitariamente, tivermos essa preocupação, não faltarão as vocações, se a Hierarquia, as famílias cristãs, as Paróquias lhes derem espaço, em Cristo e Cristo Ressuscitado.
”Homens, sede Homens”, disse Paulo VI, em Fátima.
s.m.falcao@gmail.com