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Trás-os-Montes // Olivicultores preparam apanha da azeitona Por: Fernando Pires / Secção: Actual / 30-10-2009 Imprimir Enviar a um amigo

Foto: Arquivo
Avaliar o estado de maturação do fruto, antes de proceder à apanha, é um dos segredos de alguns dos melhores produtores do mundo

Nos primeiros dias do próximo mês de Novembro, milhares de pessoas vão estar envolvidas na apanha da azeitona, um dos produtos que traz maior riqueza para os agricultores da região transmontana. Cerca de metade da produção nacional de azeitona de mesa e cerca de 35 por cento do azeite produzido em Portugal é oriundo de Trás-os-Montes. Em média, produz-se na região transmontana cerca de 45 mil toneladas de azeitona e cerca de 7500 toneladas de azeite, por ano, com a particularidade de ter a sua tipicidade proveniente das variedades de oliveiras regionais mais comuns, das quais se destacam a verdeal, a cobrançosa e madural, que lhe confere um elevado grau de qualidade, simbolizado numa dezena de marcas com Denominação de Origem Protegida (DOP) que está já a ser exportado para os países nórdicos, para os Estados Unidos, Canadá e Japão. Para Jerónimo Abreu e Lima, produtor da Quinta da Fonte (Mirandela), que foi o vencedor do prémio “Mário Solinas” (Espanha), o ano passado, o mérito da qualidade do azeite “é das características do micro-clima da região”. De resto, basta o agricultor “caprichar” e ter cuidado na selecção e “avaliar a altura ideal da maturação da azeitona para a colher” afirma. Outro dos segredos para obter um azeite de qualidade passa pela apanha o mais cedo possível, contrariando a versão popular que só deve acontecer depois de Janeiro. “Na última campanha comecei a apanha no dia 2 de Novembro, porque quanto mais cedo se apanhar a azeitona, melhor é o paladar do azeite produzido”, garante este olivicultor licenciado em história, mas que se dedica exclusivamente à agricultura há mais de vinte anos. Para quem continua a defender a apanha mais tarde, para que o rendimento seja maior, Jerónimo Abreu e Lima lembra que as geadas extraem à azeitona a maior parte da água e por isso o rendimento parece que dá mais azeite, mas não é bem assim”, argumenta o produtor, para além de considerar que a apanha tardia pode resultar em azeite sem qualquer sabor. “É quase como o óleo”, acrescenta. Este produtor de azeite de Mirandela tem cerca de seis mil oliveiras, mas devido à falta de rentabilidade no sector, há três anos que trabalha sozinho. “Para o trabalho, o investimento e para os riscos que corremos, não é possível contratar ninguém”, adianta. Sobre esta realidade, a Associação de Olivicultores de Trás-os-Montes e Alto Douro (AOTAD), que representa cerca de dez mil olivicultores da região, considera que é indispensável Portugal “apostar cada vez mais na valorização e promoção do Azeite DOP em detrimento do mercado de granel e da produção de azeite sem qualquer identidade nacional”, diz o presidente da direcção. António Branco critica o Ministério da Agricultura por não ter uma política de gestão integrada do azeite. O dirigente associativo lamenta que não exista um organismo que represente o azeite nos mercados internacionais. “Estes prémios provam que o azeite português é de excelência e não estamos a saber aproveitar a sua riqueza”, acrescenta. Para além disso, estes azeites têm dificuldade em competir no mercado com as chamadas marcas brancas porque “é preciso educar o consumidor”. Segundo António Branco, as pessoas “não conseguem diferenciar um azeite virgem, ou virgem extra e o chamado azeite que no nosso país é uma mistura de óleo refinado”. Na prática, o consumidor compra uma garrafa de azeite, mas “não sabe que está a levar consigo óleo de azeite”. Como não sabem não valorizam a qualidade do azeite, pelo que “normalmente vão sempre ao mais barato”, conclui.

Um dos melhores do mundo O azeite produzido num lagar tradicional da quinta do Romeu, concelho de Mirandela, foi considerado um melhores do mundo em duas conceituadas publicações da especialidade. O "Romeu" foi eleito para os 15 melhores do mundo pelo guia anual italiano "Extra Virgem", da Cucina & Vini Editrice. O gerente da sociedade familiar Clemente Meneres, João Pedro Meneres, explica que um painel de provadores prova cerca de três mil azeites de 15 países, selecciona e publica os trezentos melhores e destes elege os 15 melhores do mundo por categoria. O azeite transmontano "Romeu" destaca-se na categoria sistema de lagar tradicional. Também a conceituada revista goumert alemã "Der Feinschmecker" colocou o “Romeu” no seu Top Ten mundial. Há quatro gerações que este azeite é produzido a partir dos extensos olivais da família Meneres, em Trás-os-Montes, e no lagar tradicional da quinta. "É tudo biológico", garante João Pedro. Durante décadas, o azeite do Romeu foi receitado pelos médicos aos seus pacientes por ser um produto saudável, sobretudo pelo baixo grau de acidez. A complexidade de aromas e sabores foram, na opinião do gerente da sociedade, os factores que conquistaram o mundo e a prova é que chega a países tão longínquos como a Nova Zelândia. Exportam vinte mil litros por ano, exclusivamente, para lojas gourmet da Europa ao Brasil, Canadá, Japão ou Hong Kong. “Puro como Deus o deu”, lê-se no rótulo das garrafas deste azeite.

Experiência piloto A AOTAD em parceria com a Escola Superior Agrária, do Instituto Politécnico de Bragança e recorrendo à visão inovadora de um empresário agrícola, José Neves, promoveu o primeiro campo experimental de plantação de olival superintensivo em Trás-os-Montes e Alto Douro, um método aplicado em outras regiões do país, nomeadamente no Alentejo. A plantação ocorreu no final do mês de Março, em São Pedro de Vale de Conde (Mirandela), numa exploração agrícola, de cerca de 5 hectares. A iniciativa aponta para a necessidade que a AOTAD tem manifestado, de “apostar em projectos demonstrativos e replicáveis para a região, que associem a visão tradicional à inovação” afirma António Branco. Uma equipa multidisciplinar vai monitorizar e implementar diversas inovações técnicas associadas à plantação, fertilização, rega, protecção fitossanitária, colheita e outras vertentes que se pretendem demonstrativas. Sendo experimental e não beneficiando de qualquer apoio quer de fundos comunitários quer de fundos nacionais, esta iniciativa pretende a obtenção de dados concretos quanto à possibilidade ou não, da instalação e reconversão de novas formas de produção olivícola na região. Os primeiros resultados deste método serão conhecidos dentro de dois anos.

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