Entrevista // Investigadora de Avelanoso envolvida em descoberta genética Por: / Secção: Actual / 16-10-2009 · 29 comentário(s) Imprimir Enviar a um amigo
Em entrevista ao Mensageiro, Belinda Xavier falou do seu trabalho, da terra natal, onde procura regressar, sempre que podeBelinda Campos Xavier é uma investigadora portuguesa que faz parte de uma equipa de cientistas que desenvolve trabalho no Centro Hospitalar Universitário Vaudois, em Lausanne (Suíça). Esta equipa descobriu o gene responsável por uma doença esquelética rara. A descoberta foi publicada numa edição do "American Journal of Human Genetics". Em Portugal, o facto de envolver uma investigadora portuguesa resultou na publicação de notícias nos principais jornais nacionais. O que pouca gente sabe é que investigadora portuguesa é natural de Avelanoso, concelho em Vimioso. Em entrevista ao Mensageiro, Belinda Xavier falou do seu trabalho, da terra natal, onde procura regressar, sempre que pode, e da dificuldade que é viajar para Vimioso, ou Avelanoso, por uma estrada onde não chegou ainda ciência ou progresso.
Mensageiro Notícias: Fez os estudos do ensino básico em que escolas?
Belinda Xavier: O ensino básico na escola de Avelanoso, no concelho de Vimioso. O 1º e 2º ano do ciclo na escola secundária de Vimioso. O ensino secundário no Colégio São Teotónio em Coimbra, cidade onde também fiz a Universidade.
MN: Quando descobriu o seu interesse pela ciência?
BX: Desde que me lembro sempre disse que gostaria de trabalhar na área da Medicina, recordo-me de, desde muito pequena, mesmo antes de ir para a escola, dizer “quero ser médica, não para ver os doentes, mas para arranjar a cura para as doenças’’. Já mais tarde, no ensino secundário, quando tive o primeiro contacto com a genética, tive a certeza que era nesta área que eu iria trabalhar. A partir daí todas as minhas escolhas foram feitas com base na curiosidade que a genética me despertava.
"A vida de um investigador é feita por 90% de resultados negativos e 10% de resultados positivos"
MN: Foi difícil enveredar pela carreira?
BX: Como disse, desde muito cedo soube o que queria fazer, mas é claro que só ao longo dos anos de estudo as coisas se foram definindo e a minha profissão foi ganhando consistência. Quero dizer com isto que, em alturas em que foi preciso tomar decisões de “fazer isto ou aquilo’’, tudo foi facilitado pelo facto de eu saber o que queria.
MN: O que recomendaria aos mais jovens que querem ser cientistas, ou trabalhar em investigação científica?
BX: Felizmente, nos dias de hoje os jovens (e a população em geral) já têm muito contacto com a investigação científica. Hoje há diversos programas escolares, como Ciência Viva, que inclui visitas e estágios em laboratórios, mas também documentários e séries de televisão vieram despoletar interesse por algumas áreas que até há bem pouco tempo eram desconhecidas. Eu costumo dizer que a vida de um investigador é feita por 90% de resultados negativos e 10% de resultados positivos. O grande desafio é que podem passar-se vários anos só com resultados negativos, mas cada resultado negativo tem ser visto como sendo mais uma passo para um dia chegar ao resultado positivo. O que quero dizer é que ser investigador não é uma profissão, mas mais uma paixão. O que eu recomendo ao jovens que queiram ser cientistas, é que não desistam, sejam teimosos e vão atrás da paixão.
MN: Dedica muitas horas ao trabalho?
BX: Penso que não estarei a falar só por mim, mas pela maioria dos investigadores, no entanto é difícil saber o número de horas ou de dias que se dedica à investigação. Pessoalmente sei a que horas chego, mas nunca sei a que horas vou terminar. Curiosamente aconteceme frequentemente pensar “hoje vou sair cedo, porque tenho de fazer isto ou ir ali’’ e, sem me aperceber são 22h ou 23h. Por vezes o dia de trabalho é menos produtivo, todavia, no final do dia, tudo muda e, nesse caso, é impossível dizer a mim própria que no dia seguinte pensarei no assunto. O trabalho de investigação, por um lado, é um trabalho de equipa, o que implica estar no laboratório às mesmas horas que os colegas, mas, por outro é solitário, porque requer muitas horas a ler, a pesquisar, a interpretar, a estabelecer protocolos de trabalho etc... . Nesta parte solitária, o único horário é o “rendimento intelectual’’, ou seja, se o trabalho estiver a avançar, então não há hora para acabar. Mas, respondendo mais concretamente à questão, não tenho uma ideia precisa, mas, fazendo uma média do número de horas, diria, 12-14 horas por dia, com muitos sábados e domingo incluídos.
"Todos os projectos que fiz até hoje são motivo de orgulho, porque, de uma forma ou de outra, contribuíram para o avanço na compreensão de determinadas doenças ósseas"
MN: Qual é a investigação de que mais se orgulha de ter realizado?
BX: Todos os projectos que fiz até hoje são motivo de orgulho, porque, de uma forma ou de outra, contribuíram para o avanço na compreensão de determinadas doenças ósseas. No entanto, se tivesse de escolher uma delas, escolheria a identificação do gene responsável pela Omodisplasia autossómica recessiva por vários motivos, mas, sobretudo, por três razões. Primeiro, porque se tratou de um grande projecto que partiu do nível zero, ou seja, da recolha das amostras de DNA das famílias afectadas, até a identificação do gene, dando possibilidade às famílias afectadas por esta doença de realizarem um diagnóstico pré-natal e aconselhamento genético. Segundo, porque a identificação deste gene abriu caminho à identificação de uma nova classe de moléculas implicadas em doenças ósseas e, terceiro, porque foi um magnífico projecto de investigação em que cada etapa foi um processo extremamente enriquecedor, não só do ponto de vista técnico e de aquisição de conhecimentos, mas, ainda, do ponto de vista humano.
MN: Qual foi o seu último trabalho?
BX: O último trabalho foi identificação do gene responsável pela Omodisplasia (Tipo recessivo) que é uma displasia esquelética muito rara, de transmissão autossómica recessiva, caracterizada por deficiente crescimento ósseo, com especial destaque no referente aos ossos longos dos membros (úmero e fémur). É uma variedade de nanismo com membros curtos e a estatura no adulto encontra-se habitualmente compreendida entre os 132-144 cm. Além destas anomalias, os pacientes apresentam anomalias cranio-faciais, ocasionalmente defeitos cardíacos e atraso cognitivo. Os trabalhos de investigação começaram em 2006 sob a minha orientação. A identificação do gene responsável ocorreu em Novembro de 2006. Devido à complexidade dos resultados obtidos e à necessidade de tudo ser devidamente confirmado, os trabalhos de pesquisa prolongaram-se ao longo de mais 2 anos, conduzindo à publicação do artigo em Maio de 2009 no American Journal of Human Genetics.
MN: Integra uma equipa internacional. Foi difícil adaptar-se a trabalhar com pessoas de outros países?
BX: Sou uma pessoa que se adapta facilmente e, talvez por isso, a adaptação no laboratório quer na França quer na Suiça foi relativamente fácil. É curioso, mas, ao longo dos anos, nos diferentes laboratórios contactei com pessoas oriundas de diversos países (Franceses, Suíços, Italianos, Espanhóis, Marroquinos, Argelinos, Turcos, Palestinianos, Israelitas, Libaneses, Americanos e muitos outros), mas, tirando pequenos detalhes que têm a ver com parâmetros de organização do espaço de cada um, a adaptação e o convívio torna-se relativamente natural, uma vez que todos fazem investigação por paixão.
"Basta haver boa vontade por parte das pessoas responsáveis e muitos investigadores portugueses, que estão fora, terão muito prazer em regressar ao nosso país"
MN: Considera que Portugal não tem condições de manter os cientistas no país e trazer alguns de fora?
BX: Basta haver boa vontade por parte das pessoas responsáveis e muitos investigadores portugueses, que estão fora, terão muito prazer em regressar ao nosso país. A prova que isto é possível é que, embora ainda sejam poucos, já há alguns grupos em Portugal (Lisboa e Porto) a fazerem trabalhos interessantes. Muitos investigadores portugueses espalhados pelo mundo fazem excelentes trabalhos que são reconhecidos pela comunidade internacional ao serem publicados em revistas científicas, mas, caso esses investigadores estivessem no nosso país, seria o nome de Portugal que estaria associado a essas descobertas. Há concerteza muitas coisas a alterar, como criar mais infra-estruturas e, sobretudo, algumas mentalidades, mas estou convicta que, se alguns desses investigadores regressassem e outros estrangeiros fossem convidados (como aliás se passa em diversos países), seria um excelente estímulo para a nossa investigação.
MN: Costuma vir a Trás-os-Montes muitas vezes? O que pensa desta terra?
BX: Tento ir a Trás-os-Montes sempre que posso. Gostaria de poder ir mais vezes, mas, para não falar das viagens que faço habitualmente entre Portugal e a Suiça, conseguir depois arranjar tempo para chegar a Avelanoso torna-se um exercício complicado. Mas também devo confessar que as longas viagens são um factor desencorajador. Uma viagem Lisboa/ Bragança/Avelanoso ainda é quase uma epopeia que inclui auto-estradas, via rápidas, estradas nacionais e até via rápidas espanholas. Facto bastante caricato e que muito faz rir alguns do meus colegas quando eu conto que os habitantes de algumas aldeias do concelho de Vimioso, para se deslocarem a Bragança tem de passar por uma via rápida Espanhola ou então usar o mesmo trajecto que há 30 anos atrás. Mas, nos dias de hoje, em que as pessoas andam sempre aterefadas e tentam perder o menos tempo possível em deslocações, uma excelente alternativa para o nosso distrito seria o investimento num aeroporto que nos permitisse chegar rapidamente à nossa terra. Trás-os-Montes é uma região magnífica. Tem grandes potencialidades a diversos níveis, mas que, infelizmente, e em grande parte devido ao isolamento geográfico, não têm sido devidamente aproveitadas, sobretudo turisticamente. Tomando o exemplo da Suiça, que eu conheço bem, há determinados locais e paisagens que são visitados por milhares de turistas e que, em termos de beleza (e nalguns casos até de semelhança), as nossas paisagens transmontanas em nada ficam atrás.
Currículo
Belinda Campos Xavier licenciou-se em Biologia na Universidade de Coimbra (1997), doutorou-se em Doenças Genéticas Ósseas pela Universidade René Descartes - Paris V (2002) e, nos dois anos seguintes, fez um pós-doutoramento na Divisão de Pediatria Molecular do Centro Hospitalar Universitário Vaudois de Lausanne, onde é actualmente assistente de investigação, responsável por vários projectos na área das doenças genéticas do esqueleto.

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29 Comentários
Também sou de avelanoso e é sempre bom saber que nestas pacatas aldeias há pessoas de tão grande valor.
Parabéns Belinda...
teresa Tronjo
É COM NOTÍCIAS DESTAS E COM GENTE COMO ESTA QUE VIMIOSO, AINDA QUE COM LUVA BRANCA, DÁ UM VALENTE PAR DE BOFETADAS:
1º- NOS DEFENSORES DOS RATOS (PARES CUM PARIBUS!) E QUEJANDOS, QUE TUDO FAZEM PARA NADA FAZEREM POR NÓS.
2º- EM MUITOS PARASITOIDES QUE, GUINDADOS PARA OS LUGARES DE DESTAQUE ÀS COSTAS DAS NOSSAS GENTES, A PRIMEIRA VEZ QUE SÃO SOLICITADOS A FAZER ALGO PELA SUA TERRA, COM O AR MAIS HIPÓCRITA DO MUNDO, DIZEM LOGO QUE " NÃO CONHECEM O ENGAÇO"
PARABÉNS DOUTORA BELINDA PELO SEU SUCESSO E PELA MANEIRA LÚCIDA E DESASSOMBRADA COMO DEFENDE A NOSSA TERRA, PONDO O DEDO NO SÍTIO CERTO E NA HORA CERTA.
PARA BEM DA HUMANIDADE E, POR ARRASTAMENTO, PARA GLÓRIA DO NOSSO CONCELHO, DESEJO-LHE O MAIOR SUCESSO NO SEU TÃO BRILHANTE COMO OPORTUNO TRABALHO DE INVESTIGAÇÃO.
tambem sou dessa maravilhosa aldeia de
" Avelanoso" e quero desejar-te toda a sorte do mundo.
um beijinho da tua amiga "Gé"
parabéns Belinda...
parabens
Avelanoso e teus pais orgulham-se de ti.
Parabens e boa sorte.
Beijinho.
É sempre bom saber que Avelanoso anda nas bocas do mundo.
Podemos estar pouco tempo na nossa aldeia, mas as recordações são sempre boas...
Felicidades no teu trabalho.
Félix
Muitos PARABÉNS.
tambem fico contente de saber que nao te esqueces da tua terra que é nossa aldeia de avelanoso.força.
beijinhos.nathalie.
avelanoso estão também felizes por ti .parabéns.
avelanoso estão também felizes por ti .parabéns.
avelanoso estão também felizes por ti .parabéns.
Desejo-te toda a sorte do Mundo.
Beijinhos......
Desejo-te toda a sorte do mundo.
Beijinhos
Desejo-te toda a sorte do Mundo.
Beijinhos
Peço desculpa por só agora lhe estar a dar os parabéns, pelo trabalho que tem feito até hoje, e acredite que é perante génios como a Drª., que me sinto orgulhosa em ser portuguesa.
È por isso e pela pessoa que é, que lhe desejo muitas felicidades para continuar nesse caminho.Pois penso que todos os habitantes deste concelho, estão orgulhosos de si, este pequeno canto precisa de gente como a Belinda, que não se esqueçe da terra.
Muitos Parbéns.
Beijinhos. Soledade João.
Caslos Pimentel
Belinda Xavier
Como Transmontano , procuro artigos acerca de:; eis que deparei com um artigo acerca da minha querida amiga Belinda Xavier , desde o Colégio São Teotónio em coimbra e depois a faculdade....fico feliz pelo seu ( teu se leres) sucesso; só lamento que e devido aos condicionalismos de cada um tenhamos perdido os respectivos contactos.... Grato
Gosto imenso da minha terra e de toda a gente que la vive e não só tambem de todos os naturais de Avelanoso
E con grande prazer que venho de ver a grande muller que tu ês .Boa continuaçâo e que sejas muito feliz .Estou en bordeus mas sou desta terre maravillosa e que AVELANOSO .Beijinhos
Mria da conceiçâo goncalves de pinho