Vila Seca de Poiares - Régua // Caligrafia sobre o vinho Por: / Secção: O Olhar / 23-01-2009 · 6 comentário(s) Imprimir Enviar a um amigo
É em Vila Seca de Poiares, Peso da Régua, que Acácio Carvalhais trabalha o estanho de forma apaixonada.Bagos de uva, homens vergados carregando cestos vindimos e barcos rabelo são algumas das imagens que viajam pelo mundo na face de garrafas estanhadas. A bordo destes reservatórios balança o néctar sorvido das encostas durienses, o vinho generoso. É em Vila Seca de Poiares, Peso da Régua, que Acácio Carvalhais trabalha o estanho de forma apaixonada. O artesão escolheu este labor porque viu na rotulagem de garrafas uma hipótese de preservar e potenciar as imagens de marca da região do Douro. Nascido há 71 anos em Concieiro, Santa Marta de Penaguião, Acácio Carvalhais Soares Duarte tem hoje uma ocupação que faz dele um dinamizador das paisagens, dos costumes e do que melhor se produz nas encostas durienses. Foi por volta de 1986 que o artesão contactou pela primeira vez com o estanho, material do qual faz a sua matéria-prima. Numa ida a Lisboa, em busca de trabalho, Acácio Carvalhais encontrou na capital mais do que um emprego, descobriu um ofício que o iria arrebatar até aos dias de hoje. Essa oferta de trabalho acabou por não se revelar profícua e, aproveitando o facto de se encontrar em Lisboa, decidiu tirar por lá um curso relacionado com esse material. “Paguei por ele quarenta contos. Disseram-me que podia lá estar o tempo que quisesse, até aprender. O que é certo é que ao fim de três dias já sabia mais do que a professora. Deixei lá ficar os quarenta contos, comprei umas folhinhas de estanho e umas ferramentas, as coisas básicas para trabalhar, e voltei para cima”, recordou. Como já se sentia capaz de pôr em prática os ensinamentos retirados do curso e porque viu em casa de uma amiga uma garrafa com uma aplicação em estanho, decidiu começar a produzir em Vila Seca de Poiares. “Achei que uma garrafa de Vinho do Porto com um rótulo destes ficava de tarar. Vim para cima e comecei a trabalhar, inicialmente de forma muito artesanal.” À medida que a sua destreza ia aumentando e ia sendo reconhecida foram surgindo os primeiros pedidos. “O primeiro desafio foi lançado por um indivíduo da Régua que viu uma garrafa feita por mim. Mandou-me logo fazer 15. Não tinha programado ser assim, fazer tantas de uma vez, mas lá comecei a trabalhar em série”, lembrou. Depois dessa, surgiram mais e mais encomendas, ficando o seu nome intrinsecamente ligado a este saber em terras durienses.
A experiência como aliada
Hoje, Acácio Carvalhais demora apenas cerca de dez minutos a ter pronta para venda cada uma das garrafas em que coloca a aplicação em estanho. Estes processos são agora bastante mais céleres do que nos tempos em que iniciou esta actividade, porque os moldes com os quais trabalha já estão predefinidos e estão todos prontos a serem copiados.
Ainda assim, o artesão explica que, por vezes, tem pedidos diferentes dos moldes que possui. Nestes casos, é obrigado a fazer tudo desde o início, exigência que lhe rouba no mínimo três dias de trabalho. A essas solicitações responde afirmativamente, repetindo mais uma vez todo o processo do qual é mestre há 22 anos. Fá-lo com gosto, sabendo, no entanto, que “a marcação nas garrafas é um processo que, para ficar bem feito, demora muito tempo”.
“Agarro no rótulo, já cortado, e escrevo o nome. Depois viro-o ao contrário, porque o estanho tem duas partes distintas, a que se molda e a que fica agarrada à garrafa”, exemplificou.
Munido de caneta e régua, o artífice vai marcando primeiro as linhas verticais e horizontais das letras, deixando as partes circulares para o final.
Com mãos meticulosas, mas firmes, o mestre vai moldando rigorosamente os caracteres que compõem a palavra até que estes fiquem bem sulcados na chapa.
Depois de tudo estar marcado no estanho leva ainda uma “segunda volta” para que as letras fiquem garantidamente bem assinaladas e num relevo acentuado.
Depois disso, os cunhos são colocados na prensa e retirados já com a imagem impressa. Posteriormente, é necessário cortar a folha de estanho para que obtenha o formato pretendido, ajustando-se à forma cilíndrica da garrafa.
A filha de Acácio Carvalhais, sua ajudante nestas lides, é a responsável pela fase que se sucede. Nas costas da folha de estanho ficam, depois de serem severamente cravadas as letras, pequenos sulcos. Estas fendas, para não serem esmagadas quando a garrafa é agarrada, são preenchidas com cera. Este material, depois de secar, endurece e ocupa os espaços, tornando a placa de estanho num objecto uniforme e totalmente preenchido.
As costas da folha de estanho já repletas de cera são depois limpas para retirar os excessos que eventualmente fiquem, sendo depois preparadas para serem finalmente coladas ao vidro da garrafa.
Os destinos do estanho moldado
A maior parte das garrafas às quais o artesão dá nova vida são compradas por si na cidade do Peso da Régua, mas há outras, com rótulos ligados ao futebol, que já lhe são entregues seladas e com vinho da Adega Cooperativa da Régua. “Essas são mandadas estanhar por uma firma da Régua que trabalha directamente com os três grandes do futebol, o Porto, o Sporting e Benfica. Essas são garrafas oficializadas. Depois de estarem prontas levam o selo do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto e é-lhes colocada a cápsula de estanho”, explicou. As garrafas que compra e às quais dá a imagem que bem entende, Acácio Carvalhais prefere preencher com motivos relativos ao Douro e às suas gentes. Barcos rabelo, embarcações típicas desta região vinícola, cachos de uva, carros de bois e ainda os cestos vindimos são as imagens que mais utiliza como pano de fundo nas suas obras-primas. É com orgulho que Acácio Carvalhais revela que as suas garrafas, cujo preço se situa nos 12 euros, se encontram hoje em toda a parte. “As minhas garrafas correm mundo, estão nos cinco continentes”, garantiu. Para comprovar a afirmação, o artesão explicou que já lhe foi pedida uma garrafa “para uma senhora francesa que era na altura a pessoa mais idosa do mundo, que acabou por falecer com mais de 120 anos. Nesse ano, o do seu aniversário, a Casa do Douro ofereceu-lhe três garrafas de Vinho do Porto com a sua idade. Lembro-me que eram três rótulos lindos. Na frente da garrafa, a imagem da Casa do Douro e nas costas uma mensagem de parabéns para a aniversariante”, recordou. Acácio Carvalhais foi também solicitado para fazer rótulos em garrafas que foram posteriormente oferecidas a outras individualidades conhecidas além fronteiras. “O Papa João Paulo II, George W. Bush e todos os ministros da Agricultura da Europa receberam garrafas de Vinho do Porto com o rótulo feito por mim”, anunciou orgulhoso. Garrafas personalizadas são as que mais motivam o artesão, mas este já se habituou a dar resposta a encomendas que implicam vários dias de trabalho, em virtude de serem pedidas às centenas. “Na altura da Páscoa e do Natal há normalmente firmas que querem oferecer e vêm aqui pedir-me para fazer em quantidade. No melhor Natal que aqui tive – antes de estarmos em crise – fiz perto de quatro mil garrafas em pouco mais de um mês, de meados de Novembro até 20 de Dezembro”, recordou. Acácio Carvalhais é, desta forma, mais um garante da preservação de saberes antigos, um agente activo na projecção do carácter do Douro. Com esta forma de arte, o ilustre Vinho do Porto encontra mais um modo de navegar, não ao longo do rio Douro, mas palmilhando mundo, a bordo das garrafas às quais o artesão deu uma nova aparência.

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6 Comentários
Os meus cumprimentos e desculpe o arrazoado.
Carlos Alberto Cerqueira - Monção (também berço do famoso Alvarinho).
devo dizer-vos k e sem duvida o melhor artesao e pessoa k conheco nesta vida...
adoro-te pai....
Cumprimentos
elisa (filha do casacas)
Uma apaixonada pela região.
Céu Coelho
Nem sempre o lucro fácil é sinónimo de artesanato, que se faz com devoção, que por si só, já nos dá muito prazer. De resto dou-lhe os meus parabéns e espero que a sua filha se apaixone por esse trabalho e lhe dê continuidade.
Uma apaixonada pelo estanho.
Cecília Duarte Rodrigues